Jovens sacerdotes: padres levam missão de aproximar Igreja aos fiéis

O sacerdote Helano Samy é vigário paroquial no distrito de Capuan, localizado no município de Caucaia, e visita mensalmente 36 pequenos distritos naquela área

Padre Zacarias trabalha com as comunidades em Chorozinho fotos: natinho rodrigues 

Dentro da estrutura da Igreja Católica atual, o sacerdote exerce múltiplos e complexos papéis. O primeiro e mais fundamental é o de transmissor e alimentador da fé cristã junto aos fiéis, com a propagação dos evangelhos e preceitos da religião. Segundo, o de atuar como um verdadeiro “pastor”, dedicando sua vida por inteiro a ajudar, aconselhar e orientar os que procuram seu auxílio. Terceiro, o de missionário. Como afirmou o papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) deste ano, não basta abrir a porta para acolher, deve-se sair pela porta e ir ao encontro das pessoas.

No contexto renovação da Igreja, os padres mais jovens e recém-ordenados adquirem, ainda, outras funções. Detentores de experiências e olhares diferenciados, os novos presbíteros são, agora, os encarregados diretos de proporcionar o maior diálogo entre a Igreja e seus fiéis proposto pelo papa Francisco. Desafio grande que contrasta com a pouca idade da nova geração sacerdotal.

Não suficiente, precisam acompanhar a evolução mundial, estar em sintonia com as ciências e os meios de comunicação, e, ao mesmo tempo, disseminar os ensinamentos do Evangelho para uma sociedade que tende a ver o catolicismo em seus velhos moldes como uma religião ultrapassada.

Missionários

Neste mês de dezembro, completa-se um ano que Helano Samy da Silva e Zacarias Virgílio Araújo, 28, foram ordenados sacerdotes pela Arquidiocese de Fortaleza. A vocação sacerdotal aflorou ainda na adolescência e, após oito anos de estudo e preparação em seminários do Estado, eles se tornaram dois dos mais jovens presbíteros da Capital. O primeiro foi nomeado vigário paroquial no distrito de Capuan, município de Caucaia. Já o segundo serve à Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus, em Chorozinho, também na Região Metropolitana de Fortaleza.

Ao longo do ano de sacerdócio, a meta e o desejo de ambos sempre foram os mesmos. “Estar próximo ao povo, ajudando no que for preciso e necessário. A nossa vida é inteiramente de disposição para as pessoas”, diz Zacarias. Mas em cidades nas quais a religião católica perdeu espaço para outros cultos, do evangélico ao ateísmo, os jovens padres perceberam que o “estar próximo” significa, verdadeiramente, ir até a população, resgatando o ideal de uma igreja missionária.

Nas duas regiões onde estão alocados, da mesma forma que em muitas cidades do Interior do Estado, a imagem do padre ainda é vista como sinal de status, característica que ficou marcada em outros momentos da Igreja Católica e acabou por reforçar o distanciamento entre a liderança da entidade e seus seguidores. Para se aproximar, foi preciso colocar os pés no chão, quebrar o estigma, e trabalhar de perto, junto à comunidade.

Além do centro urbano de Capuan, sede da Igreja Matriz, Padre Helano Samy visita mensalmente 36 pequenos distritos situados nas redondezas. Locais pobres, carentes de fé e de assistência, onde a única presença de organização social é religiosa. Lá, ele faz o papel não só de evangelizador, celebrando missas, batismos e casamentos.

Trabalho social

O sacerdote é também o articulador dos habitantes na busca de direitos, seja por saúde, educação ou ajuda para combater os prejuízos causados pela seca que atingiu o Ceará neste ano. O sacerdote participa, ainda, de projetos sociais, a exemplo do Centro de Pesquisa Vivência Ecológica (Cepe Viva), em Caucaia, que oferece aulas de reforço e atividades físicas a 45 crianças e adolescentes pertencentes a famílias sem recursos.

“Encontramos muito essa realidade de ver pessoas que precisam do básico. Foi uma experiência que causou muito impacto. Percebi que, onde eu estou, posso ajudar a deixar as pessoas mais conscientes a respeito de seus direitos e a formar numa nova cultura que consiste em ver todas as comunidades como uma família, se ajudando nos problemas e caminhando nas alegrias”, confessa o sacerdote.

No município de Chorozinho, também castigado pela estiagem, no qual boa parcela da população vive sob condições precárias em assentamentos, Zacarias é um dos coordenadores da Pastoral da Criança. A ação do grupo, formado por voluntários, tem foco no combate da desnutrição e da desidratação infantil. “Faz parte da Igreja se envolver nisso, estar ao lado dos necessitados. Estamos voltando a nos centrar nisso. São coisas que, muitas vezes, as pessoas que estão lá fora não veem”, ele conta.

A partir de esforços como esse, os dois sacerdotes tentam renovar a Igreja resgatando atitudes e valores que remontam aos reais princípios da fé. Porém, na caminhada desde o dia em que se tornaram padres, os desafios e dificuldades continuam se apresentando em vários aspectos, a maioria ligados à modernidade e transformações sociais.

Desafios

Um deles é o de reverter a ideia de que a Igreja e a religião católica representam uma visão antiga do mundo, não correspondente com a realidade. “Quando a gente fala em Igreja, acham que é algo ultrapassado. O religioso vê o mundo com uma visão de esperança, como um agente que transforma. Tentamos mostrar que esse modo de encarar as coisas também é válido e contribui com a sociedade ainda hoje”, ressalta padre Helano.

Para ambos os sacerdotes, em tempos marcados pelo individualismo e pelo relativismo, também lhes é imposta a difícil tarefa de fazer com que a população vivencie a fé e se identifique com o evangelho. “As pessoas acreditam, às vezes, que o Evangelho não tem mais nada a ver com a sociedade, mas isso não é verdade. O Evangelho ainda fala muito para as pessoas hoje, e nós precisamos passar isso”, afirma Helano Samy.

Mas talvez o maior desafio seja o de dar respostas à sociedade em relação aos temas que abalam os dogmas da religião católica. Na visão de Zacarias Virgílio, a Igreja acompanha as mudanças nos tempos, mas não há como a instituição fugir dos princípios que a fundamentam. “A sociedade vive em uma realidade em que tudo é relativo, inclusive a fé. As pessoas pensam que a religião deve ser do jeito que elas querem, do jeito que elas acreditam. Mas a Igreja só pode dar respostas a partir do que ela se propõe, que é a vivência da fé na prática”, aponta.

Já Helano Samy avalia que, apesar de manter as tradições, a Igreja tem de estar preparada para discutir mais abertamente assuntos considerados polêmicos, como avanços da ciência, a discussão sobre sexualidade, as críticas ao direito à vida, entre outros. Na expectativa de acompanhar as mudanças do mundo contemporâneo, o próprio padre sente a necessidade de estar a par dos novos acontecimentos. Segundo ele, a Igreja precisa lidar com questionamentos levando em conta os preceitos da religião, mas também se mantendo de portas abertas.

“Hoje, a Igreja se vê interpelada de muitas maneiras, por grupos sociais distintos. Existem alguns assuntos que fazem parte de uma tradição e realmente são fechados, mas é preciso saber que o dever da Igreja é acolher. Não é a identidade de uma pessoa que vai excluí-la”, defende.

 

Fonte: Diário do Nordeste

 

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