Papa diz que mudança de eventos de Guaratiba para Copacabana pode ser recado divino

O papa Francisco afirmou, em discurso durante a Vigília de Oração na praia de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, na noite deste sábado (27) que a transferência dos eventos do Campus Fidei, montado em Guaratiba, no extremo oeste da cidade, para Copacabana pode ser um recado de Deus.

“Bom, penso que nós podemos aprender alguma coisa do que aconteceu esses dias: como nós tivemos que cancelar, por causa do tempo, a realização dessa vigília no Campus Fidei (Campo da Fé), Guaratiba. Não estaria o Senhor querendo nos dizer que o verdadeiro Campo da Fé não é um lugar geográfico, mas sim nós mesmos? Sim, cada um de nós, cada um de vocês e ser discípulo missionário significa saber reconhecer que somos o campo da fé de Deus”, afirmou.

Em seguida, Francisco disse que o campo de fé pode ser representado por três imagens: de um lugar que pode ser semeado “com a palavra de Deus”; um espaço de treinamento, como no futebol; e de construção, “como a obra de São Francisco, que reparou e consertou a Igreja.”

O discurso durou mais de 20 minutos e foi feito em português e em espanhol, em tom bastante coloquial. Ao falar de futebol, o pontífice disse que “Jesus é maior do que a Copa do Mundo”.

“Acho que a maioria de vocês ama os esportes. E aqui no Brasil, como em outros países, o futebol é uma paixão nacional. Ora bem, o que faz um jogador quando é convocado para jogar em um time? Deve treinar, e muito! Também é assim na nossa vida de discípulos do senhor. Jesus nos oferece algo muito superior que a Copa do Mundo! Oferece-nos a possibilidade de uma vida fecunda e feliz e nos oferece também um futuro com ele que não terá fim: a vida eterna”, declarou.

No final do pronunciamento, voltou a falar dos protestos protagonizados pela juventude. “Eu acompanho as notícias nos jornais e vejo que muitos jovens saíram em várias regiões do mundo pedindo mudança. Os jovens nas ruas, vocês têm de ser protagonistas, vocês têm de superar a apatia e oferecer uma resposta cristã para as inquietações sociais. Que se envolvam em um trabalho pelo mundo melhor. Não sejam covardes, se metam, saiam às ruas, como fez Jesus.”

E encerrou resumindo o teor do discurso. “Queridos amigos, vocês são o campo da fé, os atletas de cristo,os construtores de uma Igreja mais bonita.”

Vigília

O pontífice chegou por volta de 18h35 à Copacabana para participar da vigília junto com os jovens que integraram ao longo do dia uma caminhada de 9,5 km da Central do Brasil, no centro da capital, até a praia.

Ele aterrissou no Forte de Copacabana e seguiu de papamóvel até o posto 2 da praia, onde está montada a estrutura para a vigília. No trajeto, ganhou objetos de fiéis, vestiu um chapéu mexicano e desceu do carro para abençoar um cadeirante.

A vigília começou às 19h, com a encenação da reconstrução de uma igreja, simbolizando a atuação de Francisco de Assis, conhecido como o reconstrutor de igrejas. Em seguida, o ator Tony Ramos fez a abertura da vigília, sendo sucedido por um ex-dependente químico, por um padre, por um cadeirante e por uma jovem, que deram depoimentos pessoais.

Em meio às falas, houve show da cantora inglesa Judy Bailey e do sertanejo Luan Santana. O pontífice começou a discursar por volta de 20h35.

Almoço e discurso a políticos

Mais cedo, Francisco almoçou com cardeais e bispos no Palácio João Paulo 2º, na Glória (zona sul). O encontro inicialmente seria realizado no centro de estudos do Sumaré, na zona norte da capital, mas a agenda foi alterada na última hora. O motivo da mudança não foi divulgado pela organização.

Pela manhã, o pontífice celebrou missa na Catedral Metropolitana de São Sebastião, no centro da capital, e participou de encontro com autoridades, diplomatas, políticos e artistas no Theatro Municipal. Em discurso direcionado a autoridades, o papa propôs o “diálogo” como solução para protesto violento e indiferença egoísta.

“Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo”, relatou o pontífice, que afirmou que um país cresce, quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais. “Quando os líderes dos diferentes setores me pedem um conselho, a minha resposta é sempre a mesma: diálogo, diálogo, diálogo.”

Igreja nas favelas

Durante a missa celebrada na Catedral Metropolitana de São Sebastião para mais de mil bispos, sacerdotes, religiosos e seminaristas,o papa Francisco lembrou de madre Teresa de Calcutá e chamou os líderes da Igreja Católica a irem até as periferias, onde as pessoas “têm sede de Deus”.

“Que [Deus] nos empurre a sair ao encontro de tanto irmãos e irmãs que estão na periferia, que têm sede de Deus. Que não nos deixe em casa, mas que nos empurre a sair de casa. E assim sejamos discípulos do senhor”, afirmou Francisco.

Francisco chegou a citar uma frase de madre Teresa de Calcutá: “Devemos estar muito orgulhos de nossa vocação, que nos dá a oportunidade de levar cristo aos pobres, às favelas, às vidas miseráveis”. Francisco falou sobre a vocação religiosa e ressaltou que os sacerdotes têm que estar “muito orgulhosos” das suas, por elas lhes darem “a oportunidade de servir a Cristo nos pobres”. “É nas favelas, nas povoações pobres, nas vilas onde é preciso ir buscar e servir a Cristo. Devemos ir a eles como o sacerdote se aproxima do altar: com alegria”, declarou.

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