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Papa Francisco deixa doações para Varginha e Hospital São Francisco

Rio de Janeiro (Terça-feira, 30-07-2013, Gaudium Press) Segundo informações do Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom DESTAQUE.jpgOrani João Tempesta, o Papa Francisco havia deixado contribuições financeiras para a comunidade de Varginha, localizada na Região Norte do Rio de Janeiro, e para o Hospital São Francisco de Assis da Providência de Deus, locais carentes que visitou durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

Na comunidade localizada no Complexo de Manguinhos, o valor será investido em melhorias a serem definidas pelos moradores. Já no Hospital São Francisco, a doação servirá para uma sala de atendimento especial, utilizada para pacientes que se encontram em estado grave. (LMI)

Com informações A12

Corpo de Frei Fernando Rossi é velado em Quebrangulo, Alagoas

O corpo de Frei Fernando Rossi, conhecido por acompanhar Frei Damião em  peregrinações, está sendo velado na Igreja da Vila São Francisco, no município de Quebrangulo, interior de Alagoas. O enterro acorrerá na quarta-feira (31) às 10h e a expectativa é de que fiéis de várias partes do Nordeste prestem as últimas homenagens ao religioso. O local ainda do sepultamento ainda não foi confirmado pelo bispo da cidade de Palmeira dos Índios, Dulcênio Fontes.

O Frei Fernando Rossi faleceu na tarde de domingo (28) no Hospital Regional Santa Rita, em Palmeira dos Índios, município que fica a 135 km da capital alagoana. Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) desde a noite da quinta-feira (25).

Com 95 anos de idade e vivendo há 16 anos na Vila São Francisco, povoado do município de Quebrangulo, o Frei Fernando Rossi foi a óbito, segundo o laudo médico, após apresentar complicações devido a uma doença pulmonar obstrutiva crônica e infecção genealizada.

Frei Fernando nasceu na Itália em 20 de julho de 1918. Ele estudou 13 anos em um seminário até ser ordenado padre no dia 29 de fevereiro de 1942. Quatro anos depois, seus superiores italianos o enviaram ao Brasil, especificamente, para Recife, em 1947, quando recebeu ordens para acompanhar o missionário Frei Damião nas missões. Ele acompanhou o religioso foi companheiro durante 50 anos. Ao lado dele percorreu todo o Nordeste do Brasil em missões, procissões e na pregação do Evangelho de Cristo.

E fez isso até a morte de Frei Damião, em 31 de maio de 1997. O frei residiu por 17 anos no Convento de São Félix de Cantalice, bairro do Pina, em Recife, até que o ministro-geral da Ordem, John Corriveau, passou a administração do convento para os religiosos brasileiros. Depois disso, ele mudou para a Vila de São Francisco, onde passou 16 anos.

Jornada injeta R$ 1,8 bilhão no Rio

RIO – A multidão de fiéis que passou pelo Rio de Janeiro durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) parecia, a princípio, heterogênea e indecifrável. Mas só a princípio. O peregrino que esteve na cidade era, em sua maioria, mulher, nascida em São Paulo, com idade entre 21 e 24 anos e aluna do ensino superior. Além disso, nunca havia estado no Rio. Durante o evento, desembolsou uma média diária de R$ 49,70 — e isso, somado aos gastos dos estrangeiros, resultou em um impacto econômico na cidade 17 vezes maior do que a Copa das Confederações, realizada em junho.

Foram estas as conclusões de pesquisa feita por cinco professores e 20 alunos da Faculdade de Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com a Secretaria estadual de Turismo, entre os dias 23 e 25 deste mês, com os peregrinos que circularam por Copacabana e Quinta da Boa Vista. A pesquisa ouviu 1.358 fiéis e conseguiu, além de descobrir o perfil do peregrino, calcular o volume de recursos injetado na cidade.

— Foi um total de R$ 1,8 bilhão — revela, sem negar a surpresa, o professor Osiris Marques, logo depois de tabular os dados recolhidos pela equipe. — Comparado à Copa das Confederações, que trouxe ao Rio R$ 105 milhões no mês passado, a JMJ foi bem mais poderosa. Dezessete vezes maior.

Os peregrinos que vieram do exterior tiveram despesas de R$ 81,30 por dia:

— Os estrangeiros gastaram quase o dobro, porque o turista internacional costuma viajar com mais dinheiro e está mais disposto a gastar— diz Marques.

Na Copa das Confederações, os turistas gastaram mais, em média R$ 209,9 por dia, no caso dos brasileiros; ou R$ 230,60, no caso dos estrangeiros. Porém, o impacto econômico da Jornada foi maior devido ao gigantismo do evento: 1,3 milhão de turistas, contra 37 mil que vieram ao Rio na Copa das Confederações. Além disso, segundo Marques, os peregrinos passaram dez dias na cidade, o dobro da permanência dos turistas da Copa das Confederações. Alguns fiéis chegaram a ficar mais de 15 dias no Rio.

A pesquisa, concluída na sexta-feira, constatou ainda que 62% dos peregrinos eram brasileiros. Dos que vivem no Brasil, 18% vieram do estado de São Paulo. Em segundo lugar no ranking apareceram os mineiros, com 8% de participação, e, em terceiro, os cearenses, com 7% de presença.

Venda de pastéis para pagar a viagem

No que diz respeito ao gênero, as mulheres foram maioria, com 56% do total. No quesito idade, ficou evidente que o objetivo da Jornada foi atingido em cheio: 64,8% dos participantes tinham entre 16 e 24 anos, sendo que a faixa etária de 21 a 24 anos respondeu por quase um quarto do total de fiéis.

Paulista de Presidente Prudente e com 22 anos, Ana Paula Damasceno é um exemplo do perfil típico do peregrino. Ela passou os sábados e os domingos dos últimos meses vendendo pizzas, pastéis e rifas na porta de sua igreja. Com o montante arrecadado após cada missa, conseguiu pagar a viagem de 40 jovens. Todos eles a acompanharam na Jornada.

— Eu estou hospedada numa casa de família no Méier que também recebe outras seis meninas. Todas de São Paulo. Pegamos um trem e dois ônibus todos os dias para chegar a Copacabana, mas estamos adorando — conta ela. — Viemos à Jornada para conhecer o Papa Francisco e também para encontrar pessoas de outras culturas, de outros países, que acreditam no nosso Deus. É algo muito forte o que está acontecendo aqui.

Motivo: ver o Papa

O carisma do Papa Francisco — o primeiro jesuíta e o primeiro latino-americano a ocupar o cargo — aparece na pesquisa. Entre os peregrinos brasileiros, 23,3% responderam que ele, e exclusivamente ele, era a razão da viagem à cidade. Entre os estrangeiros, o índice foi ainda maior, com 35,5% do peregrinos afirmando que haviam cruzado as fronteiras de seus países para ver Francisco.

— O turismo religioso no Brasil sempre foi muito pontual. Costuma acontecer em Aparecida (SP) e em Belém do Pará, durante o Círio de Nazaré — comenta o professor Marques. — Na equipe, estamos impressionados com a força do evento e com o poder que ele terá para preencher as lacunas que normalmente são deixadas no setor por conta da sazonalidade do turismo. Trata-se de um evento muito forte.

Entre os fiéis brasileiros, 68% nunca havia estado no Rio antes. Entre os estrangeiros, 87% visitaram a cidade pela primeira vez na semana passada. A escolaridade entre os peregrinos católicos revelou-se alta. De acordo com a pesquisa, quase 40% daqueles que transitaram pelo Rio de Janeiro na última semana têm graduação, e 34%, ensino médio completos.

Estudante de matemática da Universidade de Franca, a paulista Fernanda Taveira, de 23 anos, nunca havia estado no Rio. Em 2005, quando tinha apenas 15 anos, juntou dinheiro e cruzou o Atlântico para ir à Jornada Mundial da Juventude em Colônia, na Alemanha. E, segundo ela, não perderia a edição brasileira por nada nesse mundo.

— Para pagar a inscrição (que custou R$ 575), vendi mais de 700 pingentes de colar feitos pelo meu namorado, que é ourives — conta ela, mostrando o símbolo da Jornada esculpido em ouro e prata. — Cada um custava R$ 30 e, com o dinheiro que juntei, consegui pagar a inscrição e a viagem de quase dez pessoas.

Fernanda e o namorado, o ourives Eduardo Abdalla, estão hospedados numa escola pública em Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio. Apesar da distância de Copacabana e do tumulto que encontraram no sistema de transporte, o casal sorri. Está feliz por ter a chance de estar perto do Papa Francisco.

Júlia Ribeiro veio da capital paulista. Aluna do curso de economia da Universidade de São Paulo (USP), hospedou-se num galpão no Cais do Porto junto com outras 700 pessoas.

— Sou batizada, crismada, estudei em colégio católico até a 8ª série e vou à missa todos os domingos — conta.

Papa critica bispos e pede reforma da Igreja em seu discurso

 

Pontífice recomendou aos bispos que se aproximem dos fiéis - Reprodução

Reprodução
Pontífice recomendou aos bispos que se aproximem dos fiéis

RIO – Um ataque ao abuso de poder na Igreja, à mentalidade de “príncipes” entre os cardeais, à inclusão de ideologias sociais no Evangelho – tanto marxista como liberal – e uma denúncia frontal contra o carreirismo e contra a distância imposta pelos bispos aos fiéis. Em um duro e longo discurso, considerado o principal de seu pontificado até agora, no encontro com o Comitê de Coordenação do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), o papa Francisco apelou por uma Igreja “atual” e apresentou um raio X dos problemas da Igreja que, segundo ele, estão impedindo seu crescimento e fazendo proliferar sua “imaturidade”.

Sem meias-palavras, Francisco alerta: a Igreja está “atrasada” e mantém “estruturas caducas”. Para ele, chegou o momento de a Igreja entender que precisa se modernizar e deixar de viver de tradições ou apenas de vender esperanças para o futuro. A ocasião escolhida para apresentar seu “programa de governo” para tentar reconstruir a Igreja foi a reunião que manteve com os cardeais latino-americanos, neste domingo, no Rio. “Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no ‘hoje’”, declarou. “O ‘hoje’ é o que mais se parece com a eternidade; mais ainda: o ‘hoje’ é uma centelha de eternidade. No ‘hoje’, se joga a vida eterna”, insistiu.

“O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade”, declarou, lembrando que isso “exige gerar a consciência de uma Igreja que se organiza para servir a todos os batizados e homens de boa vontade”. “O discipulado-missionário é o caminho que Deus quer para a Igreja ‘hoje’” .

Francisco, porém, ao apresentar essa estratégia como forma de reconquistar fiéis e retomar a posição de influência da Igreja, alertou justamente para vícios e tentações que a instituição atravessa e que precisa abandonar para poder retomar sua credibilidade.

“A opção pela missionariedade do discípulo sofrerá tentações”, alertou. “É importante saber por onde entra o espírito mau, para nos ajudar no discernimento. Não se trata de sair à caça de demônios, mas simplesmente de lucidez e prudência evangélicas”, disse. Para ele, essas tentações ameaçam “deter e até fazer fracassar” a ação pastoral.

Uma delas seria a “ideologização da mensagem evangélica”, numa primeira referência direta contra tendências que ganharam força na América Latina nos anos 70 e que foram combatidas pelo Vaticano com dureza. “Essa é uma tentação que se verificou na Igreja desde o início e, em alguns momentos, foi muito forte”, disse. Para o papa, uma dessas ameaças de ideologização é o “reducionismo socializante”. O argentino, porém, faz questão de atacar não apenas a Teologia da Libertação, mas também tendências liberais. “A tentação engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até a categorização marxista”, declarou.

O resultado disso tudo, segundo o papa, é uma Igreja com “falta de maturidade adulta e de liberdade cristã”. “Ou essa Igreja não cresce ou se abriga sob coberturas de ideologizações”, atacou.

Príncipes. A superação dessa crise, segundo o papa, exigirá bispos com novas atitudes. Para ele, são pessoas que devem “guiar”, não comandar. “O perfil do bispo deve ser de pastores, próximos das pessoas, homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida.

Homens que não tenham ‘psicologia de príncipes’”, disse, numa referência aos termos que são usados em Roma para descrever os cardeais. “Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra”, insistiu.

Francisco alertou que não está criando nada novo ao pedir que os bispos se aproximem dos fiéis. Mas criticou abertamente a Igreja latino-americana. “Na América Latina e no Caribe, existem pastorais ‘distantes’, pastorais disciplinares que privilegiam os princípios, as condutas, os procedimentos organizacionais… obviamente sem proximidade, sem ternura, nem carinho. Há pastorais posicionadas com tal dose de distância que são incapazes de conseguir o encontro: encontro com Jesus Cristo, encontro com os irmãos”, disse.

Leia a íntegra do discurso no encontro com o Comitê de Coordenação do Celam no Centro de Estudos do Sumaré:

Agradeço ao Senhor por esta oportunidade de poder falar com vocês, Irmãos Bispos responsáveis do Celam no quadriênio 2011-2015. Há 57 anos que o Celam serve as 22 Conferências Episcopais da América Latina e do Caribe, colaborando solidária e subsidiariamente para promover, incentivar e dinamizar a colegialidade episcopal e a comunhão entre as Igrejas da região e seus pastores.
Como vocês, também eu sou testemunha do forte impulso do Espírito na V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, em Aparecida no mês de maio de 2007, que continua animando os trabalhos do Celam para a anelada renovação das Igrejas particulares. Em boa parte delas, essa renovação já está em andamento. Gostaria de centrar esta conversação no patrimônio herdado daquele encontro fraterno e que todos batizamos como Missão Continental.
Características peculiares de Aparecida
Existem quatro características típicas da referida V Conferência. Constituem como que quatro colunas do desenvolvimento de Aparecida que lhe dão a sua originalidade.
1) Início sem documento
Medelín, Puebla e Santo Domingo começaram os seus trabalhos com um caminho preparatório que culminou em uma espécie de Instrumentum laboris, com base no qual se desenrolou a discussão, a reflexão e a aprovação do documento final. Em vez disso, Aparecida promoveu a participação das Igrejas particulares como caminho de preparação que culminou em um documento de síntese. Este documento, embora tenha sido ponto de referência durante a V Conferência Geral, não foi assumido como documento de partida. O trabalho inicial foi pôr em comum as preocupações dos pastores perante a mudança de época e a necessidade de recuperar a vida de discípulo e missionário com que Cristo fundou a Igreja.
2) Ambiente de oração com o Povo de Deus
É importante lembrar o ambiente de oração gerado pela partilha diária da Eucaristia e de outros momentos litúrgicos, tendo sido sempre acompanhados pelo Povo de Deus. Além disso, realizando-se os trabalhos na cripta do Santuário, a “música de fundo” que os acompanhava era constituída pelos cânticos e as orações dos fiéis.
3) Documento que se prolonga em compromisso, com a Missão Continental
Neste contexto de oração e vivência de fé, surgiu o desejo de um novo Pentecostes para a Igreja e o compromisso da Missão Continental. Aparecida não termina com um documento, mas prolonga-se na Missão Continental.
4) A presença de Nossa Senhora, Mãe da América
É a primeira Conferência do Episcopado da América Latina e do Caribe que se realiza em um Santuário mariano.
Dimensões da Missão Continental. A Missão Continental está projetada em duas dimensões: programática e paradigmática. A missão programática, como o próprio nome indica, consiste na realização de atos de índole missionária. A missão paradigmática, por sua vez, implica colocar em chave missionária a atividade habitual das Igrejas particulares. Em consequência disso, evidentemente, verifica-se toda uma dinâmica de reforma das estruturas eclesiais. A “mudança de estruturas” (de caducas a novas) não é fruto de um estudo de organização do organograma funcional eclesiástico, de que resultaria uma reorganização estática, mas é consequência da dinâmica da missão. O que derruba as estruturas caducas, o que leva a mudar os corações dos cristãos é justamente a missionariedade. Daqui a importância da missão paradigmática.

A Missão Continental, tanto programática como paradigmática, exige gerar a consciência de uma Igreja que se organiza para servir a todos os batizados e homens de boa vontade. O discípulo de Cristo não é uma pessoa isolada em uma espiritualidade intimista, mas uma pessoa em comunidade para se dar aos outros. Portanto, a Missão Continental implica pertença eclesial.

Uma posição como esta, que começa pelo discipulado missionário e implica entender a identidade do cristão como pertença eclesial, pede que explicitemos quais são os desafios vigentes da missionariedade discipular. Me limito a assinalar dois: a renovação interna da Igreja e o diálogo com o mundo atual.
Renovação interna da Igreja

Aparecida propôs como necessária a Conversão Pastoral. Esta conversão implica acreditar na Boa Nova, acreditar em Jesus Cristo portador do Reino de Deus, em sua irrupção no mundo, em sua presença vitoriosa sobre o mal; acreditar na assistência e guia do Espírito Santo; acreditar na Igreja, Corpo de Cristo e prolongamento do dinamismo da Encarnação.
Neste sentido, é necessário que nos interroguemos, como pastores, sobre o andamento das Igrejas a que presidimos.
Estas perguntas servem de guia para examinar o estado das dioceses quanto à adoção do espírito de Aparecida, e são perguntas que é conveniente pôr-nos, muitas vezes, como exame de consciência.

1. Procuramos que o nosso trabalho e o de nossos presbíteros seja mais pastoral que administrativo? Quem é o principal beneficiário do trabalho eclesial, a Igreja como organização ou o Povo de Deus na sua totalidade?
2. Superamos a tentação de tratar de forma reativa os problemas complexos que surgem? Criamos um hábito proativo? Promovemos espaços e ocasiões para manifestar a misericórdia de Deus? Estamos conscientes da responsabilidade de repensar as atitudes pastorais e o funcionamento das estruturas eclesiais, buscando o bem dos fiéis e da sociedade?
3. Na prática, fazemos os fiéis leigos participantes da missão? Oferecemos a palavra de Deus e os sacramentos com consciência e convicção claras de que o Espírito se manifesta neles?
4. Temos como critério habitual o discernimento pastoral, servindo-nos dos Conselhos Diocesanos? Tanto estes como os Conselhos paroquiais de Pastoral e de Assuntos Econômicos são espaços reais para a participação laical na consulta, organização e planejamento pastoral? O bom funcionamento dos Conselhos é determinante. Acho que estamos muito atrasados nisso.
5. Nós, Pastores Bispos e Presbíteros, temos consciência e convicção da missão dos fiéis e lhes damos a liberdade para irem discernindo, de acordo com o seu processo de discípulos, a missão que o Senhor lhes confia? Apoiamo-los e acompanhamos, superando qualquer tentação de manipulação ou indevida submissão? Estamos sempre abertos para nos deixarmos interpelar pela busca do bem da Igreja e da sua
Missão no mundo?
6. Os agentes de pastoral e os fiéis em geral sentem-se parte da Igreja, identificam-se com ela e aproximam-na dos batizados indiferentes e afastados?
Como se pode ver, aqui estão em jogo atitudes. A Conversão Pastoral diz respeito, principalmente, às atitudes e a uma reforma de vida. Uma mudança de atitudes é necessariamente dinâmica: “entra em processo” e só é possível moderá-lo acompanhando-o e discernindo-o. É importante ter sempre presente que a bússola, para não se perder nesse caminho, é a identidade católica concebida como pertença eclesial.

Diálogo com o mundo atual
Faz-nos bem lembrar estas palavras do Concílio Vaticano II: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens do nosso tempo, sobretudo dos pobres e atribulados, são também alegrias e esperanças, tristezas e angústias dos discípulos de Cristo. Aqui reside o fundamento do diálogo com o mundo atual.

A resposta às questões existenciais do homem de hoje, especialmente das novas gerações, atendendo à sua linguagem, entranha uma mudança fecunda que devemos realizar com a ajuda do Evangelho, do Magistério e da Doutrina Social da Igreja. Os cenários e areópagos são os mais variados. Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram “diferentes cidades”. Se continuarmos apenas com os parâmetros da “cultura de sempre”, fundamentalmente uma cultura de base rural, o resultado acabará anulando a força do Espírito Santo. Deus está em toda a parte: há que saber descobri-lo para poder anunciá-lo no idioma dessa cultura; e cada realidade, cada idioma tem um ritmo diferente.

Algumas tentações contra o discipulado missionário
A opção pela missionariedade do discípulo sofrerá tentações. É importante saber por onde entra o espírito mau, para nos ajudar no discernimento. Não se trata de sair à caça de demônios, mas simplesmente de lucidez e prudência evangélicas. Limito-me a mencionar algumas atitudes que configuram uma Igreja “tentada”. Trata-se de conhecer determinadas propostas atuais que podem mimetizar-se em a dinâmica do discipulado missionário e deter, até fazê-lo fracassar, o processo de

Conversão Pastoral.
1. A ideologização da mensagem evangélica. É uma tentação que se verificou na Igreja desde o início: procurar uma hermenêutica de interpretação evangélica fora da própria mensagem do Evangelho e fora da Igreja.

Um exemplo: a dado momento, Aparecida sofreu essa tentação sob a forma de assepsia. Foi usado, e está bem, o método de “ver, julgar, agir”. A tentação se encontraria em optar por um “ver” totalmente asséptico, um “ver” neutro, o que não é viável. O ver está sempre condicionado pelo olhar. Não há uma hermenêutica asséptica. Então a pergunta era: Com que olhar vamos ver a realidade? Aparecida respondeu: Com o olhar de discípulo. Assim se entendem os números 20 a 32. Existem outras maneiras de ideologização da mensagem e, atualmente, aparecem na América Latina e no Caribe propostas desta índole. Menciono apenas algumas:

a) O reducionismo socializante. É a ideologização mais fácil de descobrir. Em alguns momentos, foi muito forte. Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais. Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até a categorização marxista.
b) A ideologização psicológica. Trata-se de uma hermenêutica elitista que, em última análise, reduz o “encontro com Jesus Cristo” e seu sucessivo desenvolvimento a uma dinâmica de autoconhecimento.
Costuma verificar-se principalmente em cursos de espiritualidade, retiros espirituais, etc. Acaba por resultar numa posição imanente autorreferencial. Não tem sabor de transcendência, nem portanto de missionariedade.
c) A proposta gnóstica. Muito ligada à tentação anterior. Costuma ocorrer em grupos de elites com uma proposta de espiritualidade superior, bastante desencarnada, que acaba por desembocar em posições pastorais de “quaestiones disputatae”. Foi o primeiro desvio da comunidade primitiva e reaparece, ao longo da história da Igreja, em edições corrigidas e renovadas. Vulgarmente são denominados “católicos iluminados” (por serem atualmente herdeiros do Iluminismo).
d) A proposta pelagiana. Aparece fundamentalmente sob a forma de restauracionismo. Perante os males da Igreja, busca-se uma solução apenas na disciplina, na restauração de condutas e formas superadas que, mesmo culturalmente, não possuem capacidade significativa. Na América Latina, costuma verificar-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências para a “segurança” doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática, embora possa prometer uma dinâmica para dentro: regride. Procura “recuperar” o passado perdido.

2. O funcionalismo. A sua ação na Igreja é paralisante. Mais do que com a rota, se entusiasma com o “roteiro”. A concepção funcionalista não tolera o mistério, aposta na eficácia. Reduz a realidade da Igreja à estrutura de uma ONG. O que vale é o resultado palpável e as estatísticas. A partir disso, chega-se a todas as modalidades empresariais de Igreja. Constitui uma espécie de “teologia da prosperidade” no organograma da pastoral.

3. O clericalismo é também uma tentação muito atual na América Latina. Curiosamente, na maioria dos casos, trata-se de uma cumplicidade viciosa: o sacerdote clericaliza e o leigo lhe pede por favor que o clericalize, porque, no fundo, lhe resulta mais cômodo. O fenômeno do clericalismo explica, em grande parte, a falta de maturidade adulta e de liberdade cristã em boa parte do laicato da América Latina: ou não cresce (a maioria), ou se abriga sob coberturas de ideologizações como as indicadas, ou ainda em pertenças parciais e limitadas. Em nossas terras, existe uma forma de liberdade laical através de experiências de povo: o católico como povo. Aqui vê-se uma maior autonomia, geralmente sadia, que se expressa fundamentalmente na piedade popular. O capítulo de Aparecida sobre a piedade popular descreve, em profundidade, essa dimensão. A proposta dos grupos bíblicos, das comunidades eclesiais de base e dos Conselhos pastorais está na linha de superação do clericalismo e de um crescimento da responsabilidade laical.

Poderíamos continuar descrevendo outras tentações contra o discipulado missionário, mas acho que estas são as mais importantes e com maior força neste momento da América Latina e do Caribe.

Algumas orientações eclesiológicas
1.
O discipulado-missionário que Aparecida propôs às Igrejas da América Latina e do Caribe é o caminho que Deus quer para “hoje”. Toda a projeção utópica (para o futuro) ou restauracionista (para o passado) não é do espírito bom. Deus é real e se manifesta no “hoje”. A sua presença, no passado, se nos oferece como “memória” da saga de salvação realizada quer em seu povo quer em cada um de nós; no futuro, se nos oferece como “promessa” e esperança. No passado, Deus esteve lá e deixou sua marca: a memória nos ajuda encontrá-lo; no futuro, é apenas promessa… e não está nos mil e um “futuríveis”. O “hoje” é o que mais se parece com a eternidade; mais ainda: o “hoje” é uma centelha de eternidade. No “hoje”, se joga a vida eterna.

O discipulado missionário é vocação: chamada e convite. Acontece em um “hoje”, mas “em tensão”. Não existe o discipulado missionário estático. O discípulo missionário não pode possuir-se a si mesmo; a sua imanência está em tensão para a transcendência do discipulado e para a transcendência da missão. Não admite a autorreferencialidade: ou refere-se a Jesus Cristo ou refere-se às pessoas a quem deve levar o anúncio dele. Sujeito que se transcende. Sujeito projetado para o encontro: o encontro com o Mestre (que nos unge discípulos) e o encontro com os homens que esperam o anúncio.

Por isso, gosto de dizer que a posição do discípulo missionário não é uma posição de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias… incluindo as da eternidade no encontro com Jesus Cristo. No anúncio evangélico, falar de “periferias existenciais” descentraliza e, habitualmente, temos medo de sair do centro. O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo, que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais.

2. A Igreja é instituição, mas, quando se erige em “centro”, se funcionaliza e, pouco a pouco, se transforma em uma ONG. Então, a Igreja pretende ter luz própria e deixa de ser aquele “mysterium lunae” de que nos falavam os Santos Padres.
Torna-se cada vez mais autorreferencial, e se enfraquece a sua necessidade de ser missionária. De “Instituição” se transforma em “Obra”. Deixa de ser Esposa, para acabar sendo Administradora; de Servidora se transforma em “Controladora”. Aparecida quer uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora, facilitadora da fé e não controladora da fé.

3. Em Aparecida, verificam-se de forma relevante duas categorias pastorais, que surgem da própria originalidade do Evangelho e nos podem também servir de orientação para avaliar o modo como vivemos eclesialmente o discipulado missionário: a proximidade e o encontro. Nenhuma das duas é nova, antes configuram a maneira como Deus se revelou na história. É o “Deus próximo” do seu povo, proximidade que chega ao máximo quando Ele encarna. É o Deus que sai ao encontro do seu povo. Na América Latina e no Caribe, existem pastorais “distantes”, pastorais disciplinares que privilegiam os princípios, as condutas, os procedimentos organizacionais… obviamente sem proximidade, sem ternura, nem carinho.
Ignora-se a “revolução da ternura”, que provocou a encarnação do Verbo. Há pastorais posicionadas com tal dose de distância que são incapazes de conseguir o encontro: encontro com Jesus Cristo, encontro com os irmãos. Este tipo de pastoral pode, no máximo, prometer uma dimensão de proselitismo, mas nunca chegam a conseguir inserção nem pertença eclesial. A proximidade cria comunhão e pertença, dá lugar ao encontro. A proximidade toma forma de diálogo e cria uma cultura do encontro. Uma pedra de toque para aferir a proximidade e a capacidade de encontro de uma pastoral é a homilia. A pastoral é, em última instância, o exercício de maternidade da Igreja. Como são as nossas homilias? Estão próximas do exemplo de Nosso Senhor, que “falava como quem tem autoridade”, ou são meramente prescritivas, distantes, abstratas?

4. Quem guia a pastoral, a Missão Continental (seja programática seja paradigmática), é o bispo. Ele deve guiar, que não é o mesmo que comandar. Além de assinalar as grandes figuras do episcopado latino-americano que todos nós conhecemos, gostaria de acrescentar aqui algumas linhas sobre o perfil do Bispo, que já disse aos Núncios na reunião que tivemos em Roma. Os bispos devem ser pastores, próximos das pessoas, pais e irmãos, com grande mansidão: pacientes e misericordiosos. Homens que amem a pobreza, quer a pobreza interior como liberdade diante do Senhor, quer a pobreza exterior como simplicidade e austeridade de vida. Homens que não tenham “psicologia de príncipes”. Homens que não sejam ambiciosos e que sejam esposos de uma Igreja sem viver na expectativa de outra. É o fenômeno dos bispos polígamos. Estão casados com uma, mas esperando ver quando terão a promoção. Homens capazes de vigiar sobre o rebanho que lhes foi confiado e cuidando de tudo aquilo que o mantém unido: vigiar sobre o seu povo, atento a eventuais perigos que o ameacem, mas sobretudo para cuidar da esperança: que haja sol e luz nos corações. Homens capazes de sustentar com amor e paciência os passos de Deus em seu povo. E o lugar onde o bispo pode estar com o seu povo é triplo: ou à frente para indicar o caminho, ou no meio para mantê-lo unido e neutralizar as debandadas, ou então atrás para evitar que alguém se desgarre mas também, e fundamentalmente, porque o próprio rebanho tem o seu olfato para encontrar novos caminhos.
Não quero juntar mais detalhes sobre a pessoa do bispo, mas simplesmente acrescentar, incluindo-me a mim mesmo nesta afirmação, que estamos um pouco atrasados no que a Conversão Pastoral indica. Convém que nos ajudemos um pouco mais a dar os passos que o Senhor quer que cumpramos neste “hoje” da América Latina e do Caribe. E seria bom começar por aqui.

Agradeço-lhes a paciência de me ouvirem. Desculpem a desordem do discurso e lhes peço, por favor, para tomarmos a sério a nossa vocação de servidores do povo santo e fiel de Deus, porque é nisso que se exerce e mostra a autoridade: na capacidade de serviço. Muito obrigado!

Fiéis dormem em Copacabana e fila do metrô para sair do bairro diminui

A rotina da saída de Copacabana da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) mudou na noite deste sábado (27). Apesar de mais de 3 milhões de pessoas terem ido ver o Papa Francisco, segundo a organização do evento — número recorde —, as filas de metrô e ônibus para deixar o bairro, que chegaram a ter espera de mais de três horas na sexta-feira (26), diminuíram, graças aos milhares de peregrinos que vão passar a madrugada na Vigília, em dormitórios improvisados nas areias e calçadas.

Com a praia cheia de barracas e sacos de dormir, muita gente deitou pelas ruas, sempre em grupos. Conforto era palavra descartada da preocupação dos peregrinos para não perderem os últimos momentos da JMJ, que termina neste domingo (28).

Dificuldade de táxi
Apesar do menor fluxo de pessoas deixando Copacabana, duas voluntárias ficaram por mais de 40 minutos tentando pegar um táxi para ir ao local onde estão hospedadas, a Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no Méier, no Subúrbio do Rio.

Paradas em frente à estação Siqueira Campos do metrô, elas reclamaram da falta de estrutura do evento. “Os táxis estão passando cheios e, quando passam vazios, não param”, disse Camila Moreira, que veio do Mato Grosso.

A gaúcha Lucia Soares disse que não pretende voltar a um grande evento no Rio. “Não tem estrutura, não tem banheiro, nada. Não me convidem para vir ao réveillon, porque eu não venho. Assim não dá”, disse a jovem que terá de retornar à Copacabana às 6h para trabalhar no evento de encerramento.

Casal peregrina com bebê
A mudança de Guaratiba para Copacabana pegou muitos peregrinos de surpresa. Um casal de Jundiaí, no interior de São Paulo, alugou uma casa em Santa Teresa, no Centro, e estava programado para dormir na Zona Oeste  na noite deste sábado. Com a mudança no roteiro, o casal que trouxe o filho Bernardo, de apenas 1 ano, teve que voltar pra casa.

“Vamos andar até Botafogo, de lá pegaremos um ônibus pra Lapa e aí sim Santa Teresa. O Bernardo se comportou direitinho, a gente que judiou um pouco dele já que fizemos a peregrinação hoje desde a Central e aqui está bem frio. Mas o que importa é que estamos abençoados”, disse Silmara Macedo.

Ela e o marido, Michael Tiago Gonçalves, pretendem voltar neste domingo (28) por volta das 7h.

As amigas Vânia Valéria e Carmem Martins saíram cedo de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, e também vão voltar pra casa fazendo peregrinação.

“Vamos andar até Botafogo, pegar um ônibus para Central e de lá um trem para Campo Grande. Amanhã a gente chega em casa”, brincou Carmem.

No último dia no Rio, Papa faz missa de despedida e oração do Ângelus

Em seu último dia no Brasil, o Papa Francisco se despede dos fiéis neste domingo (28) com missa, discursos e um encontro com voluntários que trabalharam na Jornada Mundial da Juventude. Para o adeus do Pontífice no país, são esperados a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e Desi Bouterse, presidente do Suriname.

A agenda pública de Francisco começa às 10h, com a Missa de Envio, na Praia de Copacabana. O evento, que anteriormente estava agendado para Guaratiba, promete receber o maior número de público de toda a JMJ, podendo superar até a marca de três milhões da noite de sábado (27). Lá será anunciado o país que sediará a próxima Jornada Mundial da Juventude.

Ao meio-dia, os fiéis terão a chance de assistir a tradicional cerimônia do Ângelus, também no palco montado na orla.

Após os eventos em Copacabana, o Santo Padre retorna ao Sumaré, onde tem um almoço com organizadores da Jornada, bispos e padres.  Ainda na residência onde está hospedado, ele recebe a coordenação do Conselho Episcopal Latino-Americano para um encontro.

Às 17h30, o Papa faz uma cerimônia restrita aos voluntários da JMJ, no RioCentro, na Zona Oeste. De acordo com a agenda divulgada pelo Vaticano, na cerimônia está previsto um discurso de Francisco.

O adeus aos peregrinos e fiéis será na Base Aérea do Galeão. Às 18h30, o Papa chega ao local e faz o discurso de despedida. Em seguida, às 19h, embarca para Roma.

Discurso contra a desigualdade
No sábado (27), em seu penúltimo dia no país, o Papa Francisco engrossou o discurso político contra a desigualdade, pela aproximação dos mais pobres e pediu que jovens de todo o mundo, aqueles que querem ser “protagonistas da mudança”, “sigam superando a apatia” de forma “ordenada e pacífica”: “Saiam às ruas!”.

Francisco defendeu ainda o Estado laico, segundo o pontífice, “favorável à pacífica convivência entre religiões diversas”. Neste domingo, o Papa se despede do Brasil com uma missa em Copacabana onde, neste sábado (27), abriu uma vigília para 3 milhões de peregrinos.

Falando em castelhano à sociedade brasileira, Francisco condenou a violência. Durante sua permanência no Rio, ocorreram vários protestos violentos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Segundo o Papa, “entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo”. “O diálogo entre as gerações, o diálogo com o povo, a capacidade de dar e receber, permanecendo abertos à verdade”, defendeu.

Papa encoraja jovens a serem protagonistas de mudanças no mundo

RIO DE JANEIRO, 27 Jul (Reuters) – O papa Francisco encorajou a juventude a ser protagonista das mudanças na sociedade e dar uma “resposta cristã” às inquietudes sociais e políticas do mundo, durante seu discurso a uma multidão de jovens na orla de Copacabana neste sábado.

“Tenho seguido atentamente as notícias sobre tantos jovens que, em muitas partes do mundo, têm saído pelas ruas para expressar o desejo de uma civilização mais justa e fraterna”, disse o papa a um público estimado em até 3 milhões de pessoas durante cerimônia da Jornada Mundial da Juventude.

“São jovens que querem ser protagonistas da mudança… A vocês também peço que sejam protagonistas dessa mudança, sigam superando a apatia e oferecendo uma resposta cristã às inquietudes sociais e políticas que vão se apresentando em diversas partes do mundo. Peço que sejam construtores do futuro, que se envolvam no trabalho por um mundo melhor”, acrescentou o pontífice.

A organização da JMJ disse que mais de três milhões de pessoas participaram da Vigília de Oração com o papa, de acordo com informação da Prefeitura do Rio, superando o recorde anterior de público no local, de 2,3 milhões de pessoas no Réveillon. O Vaticano disse que a estimativa da Igreja é de mais de 2 milhões de pessoas.

Francisco, no sexto dia de sua viagem ao país para presidir as celebrações da JMJ, já havia feito referência mais cedo neste sábado aos protestos que levaram milhares de pessoas às ruas do país no mês passado para protestar contra a baixa qualidade dos serviços públicos e corrupção, entre outros temas.

Falando a líderes culturais e empresariais no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o papa argentino pediu aos líderes para não ficarem surdos diante “dos gritos por justiça (que) continuam ainda hoje” e fez uma cobrança por diálogo entre as partes.

O discurso na praia de Copacabana, onde milhares de jovens vão participar de uma vigília nesta noite, foi acompanhado por uma multidão de jovens, que aplaudiram e se emocionaram com as palavras do papa. O pontífice ainda fez os fiéis repetirem em coro “sim, queremos construir a Igreja de Cristo.”

Em seu texto preparado, ele havia acrescentado que os jovens devem protestar “de forma ordenada, pacífica e responsável”, mas improvisou e não leu essa parte de seu discurso.

O Vaticano diz que quando o papa se afasta do texto preparado anteriormente e omite algumas frases, seus pensamentos são considerados válidos, no entanto.

Como tem acontecido ao longo da visita ao Brasil, o papa teve uma recepção calorosa do povo ao percorrer de papamóvel um trajeto de três quilômetros na orla. Ele parou o veículo várias vezes para abençoar bebês e também beijou uma bandeira da Argentina que lhe foi jogada no papamóvel.

VIGÍLIA NA PRAIA

Inicialmente, o evento deste sábado seria realizado em Guaratiba, na zona oeste do Rio, mas a chuva que atingiu a cidade no início desta semana transformou o chamado Campus Fidei (Campo da Fé) em um verdadeiro lamaçal. Tanto a vigília como a missa campal, no domingo, foram transferidos de última hora pelos organizadores para Copacabana.

Francisco disse que a mudança pode ter sido ocasionada pela vontade de Deus. “Não estaria o Senhor querendo nos dizer que o verdadeiro campo da fé, o verdadeiro campus fidei, não é um lugar geográfico, mas sim que somos nós? Sim! Cada um de nós, cada um de vocês”, disse o papa aos jovens, que acamparam nas areias de Copacabana desde a manhã e que aplaudiram o papa diversas vezes.

Jovens que estavam preparados para a vigília em Guaratiba tiveram de mudar a programação devido ao cancelamento, em mais uma dor de cabeça em um evento marcado por problemas no transporte público.

Em princípio, os fiéis não seriam autorizados a pernoitar em Copacabana, mas depois o Prefeitura do Rio decidiu autorizá-los a passar a noite no local. O prefeito Eduardo Paes permitiu, inclusive, o uso de barracas de acampamento, o que era proibido até mesmo para o Campus Fidei.

“Eu estava preferindo Guaratiba pela questão da segurança, de ser um local fechado apenas para os peregrinos inscritos na JMJ, mas agora vendo que Copacabana está desse jeito acho que vai ser melhor aqui. Na praia fica muito mais legal”, disse Fernanda Leonardi, de 23 anos, que trabalha como secretária em Pouso Alegre (MG).

Montando acampamento para um grupo de 100 pessoas de sua paróquia no calçadão da praia, o polonês Tymoteusz Ksiazkiewicz, de 25 anos, elogiou a segurança montada para a vigília. “Eu estava preocupado que poucas pessoas fossem dormir na praia e que a gente ficasse exposto, mas parece que muita gente vai ficar, e tem soldado em todo lugar”, disse.

Sete mil homens das Forças Armadas que seriam empregados em Guaratiba foram deslocados para Copacabana, somando-se ao efetivo policial que já estava em ação no bairro.

RELIGIÃO E FUTEBOL

Em visita ao Brasil, sua primeira viagem internacional desde que foi eleito em março, o papa também abordou o futebol para encorajar a juventude da Igreja ao pedir que os jovens se preparem para seguir Jesus da mesma forma que os atletas precisam treinar para os jogos.

“O que faz um jogador quando é chamado para fazer parte de uma equipe? Precisa treinar e treinar muito. Assim é a nossa vida de discípulos do Senhor”, afirmou.

O papa voltará a Copacabana no domingo de manhã para a Missa de Envio da Jornada Mundial da Juventude, com a presença de autoridades, incluindo a presidente Dilma Rousseff. O pontífice embarca de volta para Roma no domingo à tarde.

A JMJ é um evento realizado a cada dois anos em uma cidade diferente para reunir jovens católicos de diversas partes do mundo. O evento deste ano no Rio de Janeiro marcou a volta do papa argentino à América Latina pela primeira vez em seu pontificado.

Papa convoca Igreja a reconquistar fiéis

O papa Francisco pediu para a Igreja brasileira reconquistar os fiéis que se tornaram evangélicos ou que abandonaram a religião, em um longo discurso neste sábado diante de cardeais e bispos do país com mais católicos do mundo.

É preciso recuperar os que “buscam respostas nos novos e difusos grupos religiosos” e “aqueles que já parecem viver sem Deus”, disse o primeiro Papa latino-americano da história, convocando-os a buscar a simplicidade e a proximidade no contato com o povo.

“Precisamos de uma Igreja que saiba dialogar com aqueles discípulos que, fugindo de Jerusalém, vagam sem uma meta, com seu próprio desencanto, com a decepção de um cristianismo já considerado estéril, infecundo, impotente para gerar sentido”, afirmou.

A Igreja enfrenta uma diminuição do número de fiéis no Brasil há mais de três décadas. Os católicos representavam 64,6% da população em 2010, contra 91,8% em 1970.

Os evangélicos, por sua vez, não param de crescer, apoiados por seu habilidoso uso da televisão e das redes sociais e por uma extensa rede de templos. Aumentaram de 5,2% da população em 1970 para 22,2% em 2010 (42,3 milhões).

Em uma clara autocrítica, o Papa disse que “talvez a Igreja tenha se mostrado muito fraca, muito distante de suas necessidades, muito pobre para responder as suas inquietações, muito fria para com eles, muito autorreferencial, prisioneira de sua própria linguagem rígida”.

“Talvez o mundo pareça ter convertido a Igreja em uma relíquia do passado, insuficiente para as novas questões; talvez a Igreja tivesse respostas para a infância do homem, mas não para sua idade adulta”, afirmou.

Em seu discurso, o pontífice também criticou a globalização, que leva a “tentativas frustradas de encontrar respostas na droga, no álcool, no sexo, convertidos em outras tantas prisões”, mas destacou que ela também carrega “algo realmente positivo”.

Papa diz que mudança de eventos de Guaratiba para Copacabana pode ser recado divino

O papa Francisco afirmou, em discurso durante a Vigília de Oração na praia de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, na noite deste sábado (27) que a transferência dos eventos do Campus Fidei, montado em Guaratiba, no extremo oeste da cidade, para Copacabana pode ser um recado de Deus.

“Bom, penso que nós podemos aprender alguma coisa do que aconteceu esses dias: como nós tivemos que cancelar, por causa do tempo, a realização dessa vigília no Campus Fidei (Campo da Fé), Guaratiba. Não estaria o Senhor querendo nos dizer que o verdadeiro Campo da Fé não é um lugar geográfico, mas sim nós mesmos? Sim, cada um de nós, cada um de vocês e ser discípulo missionário significa saber reconhecer que somos o campo da fé de Deus”, afirmou.

Em seguida, Francisco disse que o campo de fé pode ser representado por três imagens: de um lugar que pode ser semeado “com a palavra de Deus”; um espaço de treinamento, como no futebol; e de construção, “como a obra de São Francisco, que reparou e consertou a Igreja.”

O discurso durou mais de 20 minutos e foi feito em português e em espanhol, em tom bastante coloquial. Ao falar de futebol, o pontífice disse que “Jesus é maior do que a Copa do Mundo”.

“Acho que a maioria de vocês ama os esportes. E aqui no Brasil, como em outros países, o futebol é uma paixão nacional. Ora bem, o que faz um jogador quando é convocado para jogar em um time? Deve treinar, e muito! Também é assim na nossa vida de discípulos do senhor. Jesus nos oferece algo muito superior que a Copa do Mundo! Oferece-nos a possibilidade de uma vida fecunda e feliz e nos oferece também um futuro com ele que não terá fim: a vida eterna”, declarou.

No final do pronunciamento, voltou a falar dos protestos protagonizados pela juventude. “Eu acompanho as notícias nos jornais e vejo que muitos jovens saíram em várias regiões do mundo pedindo mudança. Os jovens nas ruas, vocês têm de ser protagonistas, vocês têm de superar a apatia e oferecer uma resposta cristã para as inquietações sociais. Que se envolvam em um trabalho pelo mundo melhor. Não sejam covardes, se metam, saiam às ruas, como fez Jesus.”

E encerrou resumindo o teor do discurso. “Queridos amigos, vocês são o campo da fé, os atletas de cristo,os construtores de uma Igreja mais bonita.”

Vigília

O pontífice chegou por volta de 18h35 à Copacabana para participar da vigília junto com os jovens que integraram ao longo do dia uma caminhada de 9,5 km da Central do Brasil, no centro da capital, até a praia.

Ele aterrissou no Forte de Copacabana e seguiu de papamóvel até o posto 2 da praia, onde está montada a estrutura para a vigília. No trajeto, ganhou objetos de fiéis, vestiu um chapéu mexicano e desceu do carro para abençoar um cadeirante.

A vigília começou às 19h, com a encenação da reconstrução de uma igreja, simbolizando a atuação de Francisco de Assis, conhecido como o reconstrutor de igrejas. Em seguida, o ator Tony Ramos fez a abertura da vigília, sendo sucedido por um ex-dependente químico, por um padre, por um cadeirante e por uma jovem, que deram depoimentos pessoais.

Em meio às falas, houve show da cantora inglesa Judy Bailey e do sertanejo Luan Santana. O pontífice começou a discursar por volta de 20h35.

Almoço e discurso a políticos

Mais cedo, Francisco almoçou com cardeais e bispos no Palácio João Paulo 2º, na Glória (zona sul). O encontro inicialmente seria realizado no centro de estudos do Sumaré, na zona norte da capital, mas a agenda foi alterada na última hora. O motivo da mudança não foi divulgado pela organização.

Pela manhã, o pontífice celebrou missa na Catedral Metropolitana de São Sebastião, no centro da capital, e participou de encontro com autoridades, diplomatas, políticos e artistas no Theatro Municipal. Em discurso direcionado a autoridades, o papa propôs o “diálogo” como solução para protesto violento e indiferença egoísta.

“Entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo”, relatou o pontífice, que afirmou que um país cresce, quando dialogam de modo construtivo as suas diversas riquezas culturais. “Quando os líderes dos diferentes setores me pedem um conselho, a minha resposta é sempre a mesma: diálogo, diálogo, diálogo.”

Igreja nas favelas

Durante a missa celebrada na Catedral Metropolitana de São Sebastião para mais de mil bispos, sacerdotes, religiosos e seminaristas,o papa Francisco lembrou de madre Teresa de Calcutá e chamou os líderes da Igreja Católica a irem até as periferias, onde as pessoas “têm sede de Deus”.

“Que [Deus] nos empurre a sair ao encontro de tanto irmãos e irmãs que estão na periferia, que têm sede de Deus. Que não nos deixe em casa, mas que nos empurre a sair de casa. E assim sejamos discípulos do senhor”, afirmou Francisco.

Francisco chegou a citar uma frase de madre Teresa de Calcutá: “Devemos estar muito orgulhos de nossa vocação, que nos dá a oportunidade de levar cristo aos pobres, às favelas, às vidas miseráveis”. Francisco falou sobre a vocação religiosa e ressaltou que os sacerdotes têm que estar “muito orgulhosos” das suas, por elas lhes darem “a oportunidade de servir a Cristo nos pobres”. “É nas favelas, nas povoações pobres, nas vilas onde é preciso ir buscar e servir a Cristo. Devemos ir a eles como o sacerdote se aproxima do altar: com alegria”, declarou.

‘Bergoglio sempre foi simples’, dizem argentinos

Jorge Bergoglio manteve o mesmo olhar simples e sincero e as mesmas atitudes de proximidade com o povo antes e depois de se tornar Papa Francisco, segundo jornalistas argentinos que o acompanharam durante anos, enquanto este ainda era cardeal em Buenos Aires.

“Diz-se que este Papa está surpreendendo. Mas para quem cobria informações religiosas na Argentina não é uma surpresa. Ele sempre foi assim, simples e sincero. Coerente no que diz e no que faz”, disse o jornalista Sergio Rubín, do jornal argentino “El Clarín”, coautor de uma biografia sobre Bergoglio (“O Jesuíta”). “Não é marketing. É o Jorge Bergoglio de sempre”.

Rubín disse que começou a pensar no livro depois que Bergoglio ficou em segundo lugar no conclave de 2005, que elegeu Joseph Ratzinger como Pontífice. Não havia a menor perspectiva de que algum dia ele pudesse se tornar Papa, disse. Mas sua devoção aos pobres, o contato com o povo e a força que vinha de sua humildade estavam entre as características que o tornavam um bom personagem para ser biografado.

“Era para ser a memória de um grande cardeal”, disse. “Ele não gosta de aparecer e, quando o abordamos pela primeira vez sobre o livro, saiu correndo. Como jornalistas, insistimos. Na terceira vez, cedeu”.

Durante dois anos, os autores Rubín e Francesca Ambrogetti se encontraram uma vez por mês com o religioso para discutir temas como Cultura, Igreja, Educação, história familiar e etc.

O padre Gustavo A. Sanchez, diretor do projeto “A Voz dos Hospitais” e repórter da radio Brazos Abiertos (Braços Abertos), de Buenos Aires, Alejandro D”Alessandro, também participaram de uma coletiva de imprensa hoje e compartilharam suas experiências com o Santo Padre.

O fotógrafo Enrique Cancas, também do “Clarín”, relatou não ver mudanças na postura do Papa Francisco. Cancas o acompanha há dez anos, inicialmente como fotógrafo freelancer. Segundo ele, no entanto, nos últimos três anos foi sentida uma grande transformação na forma como Bergoglio era tratado, ganhando cada vez mais projeção, embora mantivesse a mesma postura humilde.

Cancas trouxe uma foto de presente para Francisco, com quem se encontrou durante a Jornada Mundial da Juventude. “Eu disse: Jorge, te trouxe uma foto”, contou. A imagem mostra o close de um jovem em vigília, exibindo uma foto de Francisco e símbolos do seu time de futebol de coração, San Lorenzo. “Sempre se manteve humilde e sincero”.