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Papa Francisco usa a simplicidade para reconquistar o mundo

Ausente dos rankings especializados na eleição do conclave, votação secreta que o elegeu pontífice em 13 de março deste ano, e ignorado na sucessão de Bento XVI nas casas de apostas da Argentina, onde nasceu, Jorge Mario Bergoglio chega ao fim de seu primeiro ano à frente da Igreja Católica como uma das figuras de maior popularidade do mundo. Influenciado pela sugestão de d. Cláudio Hummes, cardeal arcebispo emérito de São Paulo, “de não esquecer dos pobres”, logo após sua eleição no conclave em 13 de março de 2013, escolheu o nome papal de Francisco.

A opção remete ao santo mais popular da Igreja Católica, cultuado por seu amor à simplicidade, aos pobres e excluídos, aos animais e à natureza. O fato acabou se tornando estratégia hábil e eficaz para tentar reverter o desânimo que se abateu sobre o catolicismo desde o século 20, traduzido no País, por exemplo, na diminuição expressiva do número de brasileiros que se dizem católicos.

Primeiro papa não europeu em mais de 1.300 anos, primeiro papa latino-americano, primeiro pontífice jesuíta da história, Francisco foi eleito ‘Pessoa do Ano’ pela revista americana Time, desbancando Edward Snowden, o ex-analista que vazou detalhes da espionagem governamental americana. O papa que considera “indispensável” o uso da internet para abordar o evangelho é também campeão de referências de 2013 na rede de relacionamentos Facebook em todo o mundo. No microblog Twitter, papa Francisco é seguido atualmente por mais de 10 milhões de pessoas.

Para d. Orani Tempesta, cardeal arcebispo do Rio de Janeiro, o “jeito simples de Francisco” tem sido determinante para a notoriedade do pontífice. “Ele fala para todos. Possui um dom natural de se expressar que atinge as periferias existenciais, como ele mesmo costuma falar. Ele fala para o povo. Dirige conselhos, aborda com amor as pessoas, vai ao encontro das dificuldades vivenciadas pela humanidade nas mais variadas situações. Apresenta o rosto materno da Igreja que acolhe a todos e a cada um”, analisa.

Mais de dois milhões de pessoas compareceram às audiências abertas do papa Francisco na Praça São Pedro desde sua eleição em março, quatro vezes mais gente do que o papa Bento XVI conseguiu reunir em 2012. Segundo o Vaticano, foi vendido mais de 1,5 milhão de ingressos para as 30 audiências gerais do papa desde sua eleição.

“Ele tem um modo novo e interessante para dizer as mesmas coisas. Para a Igreja e os católicos trouxe novo ânimo”, avalia o cardeal d.Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, um dos nomes que esteve entre os mais cotados para suceder Bento XIV na época do conclave. “Penso que a explicação para a popularidade do papa está na importância da mensagem que ele transmite e na instituição que representa. A esses fatos alia-se a sua grande capacidade de comunicação. Podemos dizer que o papa Francisco chamou a atenção do mundo para uma agenda própria”, explica d.Odilo.

Na pauta desta agenda entram a fome, que Francisco chamou de “escândalo mundial”, críticas à “idolatria ao dinheiro” e até assuntos terrenos da própria Igreja. Após a eleição de Francisco, pela primeira vez em 125 anos o Banco do Vaticano publicou suas contas – segundo o informe financeiro, a receita quadruplicou em 2012, atingindo 86,6 milhões de euros. A nomeação de seu secretário pessoal, Alfred Xuereb, para supervisionar a instituição é parte da faxina que Bergoglio já iniciou na Cúria Romana, contratando consultorias e reduzindo número de funcionários.

Também pode ser creditado ao feitio do novo pontífice o sermão do bispo d. Oscar Ojea em um domingo de dezembro na catedral de San Isidro, em Buenos Aires. Ojea leu a comunicação, replicada em outras paróquias e capelas argentinas, em que a Igreja Católica do país pede perdão pelo crime de pedofilia do padre José Antonio Mercau, anunciando ainda que indenizará as quatro vítimas dos abusos do clérigo. Esta é a primeira vez que a Igreja Católica pede perdão e indeniza de forma voluntária um grupo de vítimas da pedofilia.

Humor

O papa Francisco arrebanha suas ovelhas também na base do bom humor. Durante o voo entre Roma e o Rio de Janeiro, em julho de 2013, brincou com os que “lamentaram” sua nacionalidade argentina. “Vocês já têm um Deus brasileiro, queriam um papa brasileiro também?”, disse, em referência à máxima nacional. Low profile, costuma carregar sua própria valise e, ao ser eleito, o portenho, nascido e criado no bairro de Flores, ligou para seu jornaleiro em Buenos Aires para avisar que cancelaria a assinatura do jornal La Nación, já que agora moraria em Roma.

Mas, além do estilo nada comum aos que exercem cargos de tamanho poder, o papa vem fazendo um discurso de menos intolerância e mais compaixão sobre temas como aborto, homossexualidade e contracepção. Não à toa, o 266º papa da Igreja Católica acaba de ser eleito por uma revista gay ‘Personalidade de 2013’.

“Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu para julgar?”, comentou o papa em entrevista durante o voo de volta para a Itália, após a Jornada Mundial da Juventude, entre 23 e 28 de julho no Brasil. Disse ainda que a igreja se fecha “em regras pequenas” e que não deve “interferir espiritualmente” na vida de gays e lésbicas. Foi o suficiente para a revista americana “The Advocate” justificar a distinção.

Pesquisa do Datafolha no mês anterior à JMJ traz números que exibem a opinião dos católicos brasileiros em relação a esses temas polêmicos: 22% declararam ser contra a lei que criminaliza o aborto, 36% se disseram contra a legalização da união entre casais homossexuais, 42% afirmaram ser contra a adoção de crianças por casais gays e 16% se posicionaram contra a lei que criminaliza a homofobia.

“Ele é a mudança! (risos)”, diz d.Orani. “Cada Papa atualiza a Igreja ao seu tempo. O papa Francisco traz suas experiências, sua personalidade, e uma linguagem atual das questões eclesiais e sociais. O tempo está nos fazendo conhecer o ‘novo’ do Papa Francisco. Ele já falou, em recente entrevista, de sua conversa sobre reforma na Igreja com um cardeal idoso, há alguns meses, que lhe disse: ‘O senhor já começou a reforma da Cúria com a missa cotidiana em Santa Marta’. Isso o fez pensar: a reforma começa sempre com iniciativas espirituais e pastorais, antes que com mudanças estruturais”.

Queda

O agora papa emérito Bento XVI, ao anunciar que renunciaria ao cargo, no dia 11 de fevereiro de 2013, afirmou que não tinha mais forças para a tarefa. Em seu pontificado de oito anos teve de enfrentar o escândalo de padres acusados de pedofilia e o vazamento de documentos secretos no chamado VatiLeaks.

No Brasil, nunca o catolicismo viveu tamanha crise. A mesma pesquisa Datafolha de julho de 2013 indicou que apenas 57% dos brasileiros maiores de 16 anos se declaram católicos. Os números de uma pesquisa do pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia a Estatística (IBGE) já mostravam em 2010 o encolhimento do catolicismo no País. Em 1940, 95% dos brasileiros se declaravam católicos. Em 1991, eram 83%. Em 2010, esse número já havia baixado para 64,6%.

“A perda de fiéis não nos deixa indiferentes, mas é preciso dizer que isso acontece também em outras religiões tradicionais e até em grupos mais recentes”, argumenta o cardeal de São Paulo. “Por outro lado, em várias partes do mundo, a Igreja católica está em crescimento; no Brasil houve um aumento significativo de seminaristas e de padres nas últimas décadas. O fenômeno sócio-religioso da ‘migração religiosa’ é complexo e está marcado pela cultura do nosso tempo. A atuação do papa Francisco e dos católicos, animados por ele, poderá ter uma incidência positiva em relação à adesão de pessoas a Deus. Esperamos que isso ocorra”, pondera d. Odilo.

Ânimo

Para d. Orani, a vinda do Papa ao Brasil deixou grandes marcas de conversão. “Fortaleceu a fé, reacendeu ânimos, mostrou a imagem de uma Igreja jovem, viva, alegre. Essa visita não poderia passar despercebida, ou deixar as coisas como estavam antes. Claro que temos um novo cenário: católicos animados, pessoas que querem conhecer a Igreja e a fé católica, pois viram um grande evento em seu país e se sentiram tocadas pelos testemunhos de milhões de pessoas unidas pela mesma fé e pelos mesmos ideais e, com o testemunho vivo do Sucessor de Pedro, fizeram a experiência com o ‘doce Cristo na Terra’, expressão utilizada por Santa Terezinha em referência ao papa.”

Para o arcebispo do Rio de Janeiro, a Jornada Mundial da Juventude foi “uma grande festa, um encontro de irmãos de fé”, deixando legados econômico, ecológico, social, pastoral e ecumênico. O impacto da JMJ na economia do Rio de Janeiro foi de R$ 1,285 bilhão de acordo com uma pesquisa encomendada pelo Ministério de Turismo.

“Aprendemos que é possível reduzir o impacto ambiental. Durante toda a semana da Jornada, foi gerado menos de 10% do lixo registrado apenas na noite do último réveillon. Deixou um legado social: inauguração de um ala psiquiátrica, no Hospital São Francisco da Providência de Deus, que recebeu o nome de Polo de Atenção Intensiva à Saúde Mental (PAI), destinada ao tratamento dos dependentes químicos”, cita d. Orani.

“Também foi criado um ônibus para o tratamento de dependentes químicos, chamado de Passaporte da Cidadania, que acolhe e trata moradores de rua envolvidos com as drogas”, diz o arcebispo do Rio. “Podemos falar também em um legado para a imagem do Rio em todo o mundo. Foram cerca de 6.500 jornalistas de mais de 70 países cobrindo o evento, colocando a Cidade Maravilhosa e o Brasil nos olhos do mundo durante uma semana. A maioria dos estrangeiros estavam na cidade pela primeira vez e 93% deles afirmaram querer retornar”.

De resto, é preciso esperar, afirma d. Odilo. “Em matéria de convicções e atitudes religiosas, é difícil fazer cálculos. Seria mais apropriado dizer que o Papa, em sua visita ao Brasil, fez uma generosa semeadura. Os frutos virão a seu tempo”, diz o cardeal.

Papa Francisco faz apelo pela paz em sua primeira mensagem de Natal

Em seu primeiro discurso “Urbi et Orbi” (para a cidade e o mundo) desde que assumiu a liderança da Igreja Católica em março passado, o Papa Francisco fez um apelo pela paz no mundo. Falando para dezenas de milhares de fiéis reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano, o pontífice destacou os conflitos no Sudão do Sul, Síria, Nigéria, Congo e Iraque e também disse estar rezando para avanços no diálogo entre israelenses e palestinos. Segundo Francisco, os indivíduos têm um importante papel na promoção da paz, seja com seus vizinhos ou entre nações.

– A verdadeira paz não é o equilibrio entre duas forças opostas, não é uma bela fachada que esconde conflitos e divisões – lembrou o Papa, acrescentando que a maior parte das vítimas são exatamente as pessoas mais vulneráveis, como as crianças, os idosos, as mulheres e os doentes.

– A paz pede por um compromisso diário, a começar pelo presente de Deus, com a graça que nos deu em Jesus Cristo. Ao vermos a Criança na manjedoura, nossos pensamentos se voltam àquelas crianças que são as vítimas mais vulneráveis das guerras, mas pensamos também nos idosos, nas mulheres, nos doentes. A guerra destrói e fere muitas vidas.

O Papa Francisco também aproveitou a tradicional mensagem de Natal para fazer uma defesa do meio ambiente, que precisa ser salvo “da cobiça e ação humanas” que agravam desastres naturais como o recente supertufão que atingiu as Filipinas.

– Senhor do céu e da Terra, cuide de nosso planeta, muitas vezes explorado pela cobiça e ação humanas. Ajude e proteja todas as vítimas de desastres naturais, especialmente ao amado povo das Filipinas, gravemente afetado por um tufão recente – ressaltou.

Fonte: O Globo

Natal não deve ser de festas e compras, diz o papa

Cidade do Vaticano – O papa Francisco pediu nesta segunda-feira (23) que as pessoas usem o Natal como uma oportunidade para se colocar “no lugar de Jesus”, e não para “fazer festas, compras e rumores”.

O Pontífice fez a declaração durante uma missa celebrada nesta manhã na residência de Santa Marta, no Vaticano. “O Natal geralmente é uma fez barulhenta, mas fará bem ficar um pouco em silêncio para ouvir a voz do amor”, comentou.

Esse será o primeiro ano de Francisco à frente das celebrações de Natal da Igreja Católica.

Ele presidirá amanhã uma missa na Basílica de São Pedro e, na quarta-feira, fará a benção “Urbi et Orbi” no Vaticano.

Fonte: Revista Exame

Jovens sacerdotes: padres levam missão de aproximar Igreja aos fiéis

O sacerdote Helano Samy é vigário paroquial no distrito de Capuan, localizado no município de Caucaia, e visita mensalmente 36 pequenos distritos naquela área

Padre Zacarias trabalha com as comunidades em Chorozinho fotos: natinho rodrigues 

Dentro da estrutura da Igreja Católica atual, o sacerdote exerce múltiplos e complexos papéis. O primeiro e mais fundamental é o de transmissor e alimentador da fé cristã junto aos fiéis, com a propagação dos evangelhos e preceitos da religião. Segundo, o de atuar como um verdadeiro “pastor”, dedicando sua vida por inteiro a ajudar, aconselhar e orientar os que procuram seu auxílio. Terceiro, o de missionário. Como afirmou o papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) deste ano, não basta abrir a porta para acolher, deve-se sair pela porta e ir ao encontro das pessoas.

No contexto renovação da Igreja, os padres mais jovens e recém-ordenados adquirem, ainda, outras funções. Detentores de experiências e olhares diferenciados, os novos presbíteros são, agora, os encarregados diretos de proporcionar o maior diálogo entre a Igreja e seus fiéis proposto pelo papa Francisco. Desafio grande que contrasta com a pouca idade da nova geração sacerdotal.

Não suficiente, precisam acompanhar a evolução mundial, estar em sintonia com as ciências e os meios de comunicação, e, ao mesmo tempo, disseminar os ensinamentos do Evangelho para uma sociedade que tende a ver o catolicismo em seus velhos moldes como uma religião ultrapassada.

Missionários

Neste mês de dezembro, completa-se um ano que Helano Samy da Silva e Zacarias Virgílio Araújo, 28, foram ordenados sacerdotes pela Arquidiocese de Fortaleza. A vocação sacerdotal aflorou ainda na adolescência e, após oito anos de estudo e preparação em seminários do Estado, eles se tornaram dois dos mais jovens presbíteros da Capital. O primeiro foi nomeado vigário paroquial no distrito de Capuan, município de Caucaia. Já o segundo serve à Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus, em Chorozinho, também na Região Metropolitana de Fortaleza.

Ao longo do ano de sacerdócio, a meta e o desejo de ambos sempre foram os mesmos. “Estar próximo ao povo, ajudando no que for preciso e necessário. A nossa vida é inteiramente de disposição para as pessoas”, diz Zacarias. Mas em cidades nas quais a religião católica perdeu espaço para outros cultos, do evangélico ao ateísmo, os jovens padres perceberam que o “estar próximo” significa, verdadeiramente, ir até a população, resgatando o ideal de uma igreja missionária.

Nas duas regiões onde estão alocados, da mesma forma que em muitas cidades do Interior do Estado, a imagem do padre ainda é vista como sinal de status, característica que ficou marcada em outros momentos da Igreja Católica e acabou por reforçar o distanciamento entre a liderança da entidade e seus seguidores. Para se aproximar, foi preciso colocar os pés no chão, quebrar o estigma, e trabalhar de perto, junto à comunidade.

Além do centro urbano de Capuan, sede da Igreja Matriz, Padre Helano Samy visita mensalmente 36 pequenos distritos situados nas redondezas. Locais pobres, carentes de fé e de assistência, onde a única presença de organização social é religiosa. Lá, ele faz o papel não só de evangelizador, celebrando missas, batismos e casamentos.

Trabalho social

O sacerdote é também o articulador dos habitantes na busca de direitos, seja por saúde, educação ou ajuda para combater os prejuízos causados pela seca que atingiu o Ceará neste ano. O sacerdote participa, ainda, de projetos sociais, a exemplo do Centro de Pesquisa Vivência Ecológica (Cepe Viva), em Caucaia, que oferece aulas de reforço e atividades físicas a 45 crianças e adolescentes pertencentes a famílias sem recursos.

“Encontramos muito essa realidade de ver pessoas que precisam do básico. Foi uma experiência que causou muito impacto. Percebi que, onde eu estou, posso ajudar a deixar as pessoas mais conscientes a respeito de seus direitos e a formar numa nova cultura que consiste em ver todas as comunidades como uma família, se ajudando nos problemas e caminhando nas alegrias”, confessa o sacerdote.

No município de Chorozinho, também castigado pela estiagem, no qual boa parcela da população vive sob condições precárias em assentamentos, Zacarias é um dos coordenadores da Pastoral da Criança. A ação do grupo, formado por voluntários, tem foco no combate da desnutrição e da desidratação infantil. “Faz parte da Igreja se envolver nisso, estar ao lado dos necessitados. Estamos voltando a nos centrar nisso. São coisas que, muitas vezes, as pessoas que estão lá fora não veem”, ele conta.

A partir de esforços como esse, os dois sacerdotes tentam renovar a Igreja resgatando atitudes e valores que remontam aos reais princípios da fé. Porém, na caminhada desde o dia em que se tornaram padres, os desafios e dificuldades continuam se apresentando em vários aspectos, a maioria ligados à modernidade e transformações sociais.

Desafios

Um deles é o de reverter a ideia de que a Igreja e a religião católica representam uma visão antiga do mundo, não correspondente com a realidade. “Quando a gente fala em Igreja, acham que é algo ultrapassado. O religioso vê o mundo com uma visão de esperança, como um agente que transforma. Tentamos mostrar que esse modo de encarar as coisas também é válido e contribui com a sociedade ainda hoje”, ressalta padre Helano.

Para ambos os sacerdotes, em tempos marcados pelo individualismo e pelo relativismo, também lhes é imposta a difícil tarefa de fazer com que a população vivencie a fé e se identifique com o evangelho. “As pessoas acreditam, às vezes, que o Evangelho não tem mais nada a ver com a sociedade, mas isso não é verdade. O Evangelho ainda fala muito para as pessoas hoje, e nós precisamos passar isso”, afirma Helano Samy.

Mas talvez o maior desafio seja o de dar respostas à sociedade em relação aos temas que abalam os dogmas da religião católica. Na visão de Zacarias Virgílio, a Igreja acompanha as mudanças nos tempos, mas não há como a instituição fugir dos princípios que a fundamentam. “A sociedade vive em uma realidade em que tudo é relativo, inclusive a fé. As pessoas pensam que a religião deve ser do jeito que elas querem, do jeito que elas acreditam. Mas a Igreja só pode dar respostas a partir do que ela se propõe, que é a vivência da fé na prática”, aponta.

Já Helano Samy avalia que, apesar de manter as tradições, a Igreja tem de estar preparada para discutir mais abertamente assuntos considerados polêmicos, como avanços da ciência, a discussão sobre sexualidade, as críticas ao direito à vida, entre outros. Na expectativa de acompanhar as mudanças do mundo contemporâneo, o próprio padre sente a necessidade de estar a par dos novos acontecimentos. Segundo ele, a Igreja precisa lidar com questionamentos levando em conta os preceitos da religião, mas também se mantendo de portas abertas.

“Hoje, a Igreja se vê interpelada de muitas maneiras, por grupos sociais distintos. Existem alguns assuntos que fazem parte de uma tradição e realmente são fechados, mas é preciso saber que o dever da Igreja é acolher. Não é a identidade de uma pessoa que vai excluí-la”, defende.

 

Fonte: Diário do Nordeste

 

Vaticano autoriza missa em línguas indígenas no México

Quando os sinos tocam na igreja Templo la Caridad, na cidade colonial de San Cristóbal de las Casas, no México, o bispo local conduz um grupo de adolescentes indígenas em seu próximo passo na instrução religiosa.

A Crisma é um tiro de passagem importante para qualquer católico devoto. É o momento em que eles repetem os compromissos e promessas para Deus feitos em nome deles quando foram batizados.

Mas para estes jovens, o que se fala na cerimônia ressoa particularmente. A Crisma está sendo celebrada em tzotzil, a principal língua maia nesta parte do México.

Durante séculos, a Igreja católica no Estado de Chiapas, ao sul do país, só realizou cerimônias oficiais em latim ou espanhol.

“Quando os padres falam comigo em espanhol, eu não sei o que eles estão dizendo ou explicando”, diz Maria Teresa, de 16 anos.

Assim como 65% da população de Chiapas, ela faz parte do povo maia e fala pouco espanhol.

“Mas quando eu ouço as palavras na minha própria língua, eu entendo tudo e sinto como se o próprio Jesus Cristo estivesse falando comigo.”

Nova abordagem

Apesar de o espanhol permanecer como a linguagem da Igreja no México, gerações de catequizadores e missionários católicos traduziram a Bíblia para o tzotzil e para o tzeltal, outra língua indígena bastante popular na região.

Nos últimos sete anos, a diocese de San Cristóbal – uma das mais antigas do país – liderou os pedidos ao Vaticano para reconhecer oficialmente a liturgia nas línguas maia.

O pedido recebeu atenção em outubro, quando o papa Francisco deu o sinal verde para que a celebração da missa semanal e alguns rituais-chave do catolicismo, como a confissão e o batismo, possam ser feitos nas duas línguas indígenas.

O bispo auxiliar de San Cristóbal, o reverendo Enrique Díaz, diz que conseguir o reconhecimento de Roma foi um processo longo e complicado.

“Isto é a aceitação não só de uma simples tradução, mas de um estudo meticuloso que captura o sentido das palavras da liturgia e da Bíblia”, diz, enquanto se houve o clero cantar hinos religiosos em tzotzil dentro da Igreja.

O bispo dá parte do crédito ao papa Francisco, que o ajudou a conseguir a autorização.

“Sem dúvida o papa Francisco trouxe consigo uma nova abordagem”, diz, argumentando que o fato de o pontífice ser argentino influenciou sua atitude em relação à América Latina. “Ele é mais próximo de nós tanto em termos de pensamento latino-americano como sobre os povos indígenas.”

“Mesmo que não haja uma presença indígena grande na Argentina, ele passou algum tempo com comunidades indígenas e nos entende bem”, diz Díaz, que viajou para o Vaticano para discutir o papel da Igreja nas comunidades maias com o papa.

Mas o analista de questões religiosas mexicano Elio Mas Ferrer diz que o tzotzil já é usado não-oficialmente em celebrações religiosas em Chiapas há anos.

Para ele, a aprovação de Roma é parte de uma estratégia maior do Vaticano.

“Estritamente falando, não é nada novo”, diz ele, lembrando que desde de os anos 1960 a Igreja católica diz acreditar que “a revelação da palavra deve acontecer em consonância com a cultura de cada povo”.

Corações e mentes

Mas Ferrer diz que o que pode ser mais revolucionário é que a iniciativa faz parte de um relaxamento maior da política papal a respeito do “catolicismo indígena”.

A Igreja Católica tem perdido cada vez mais seguidores para os ramos evangélicos. Até mesmo as igrejas anglicanas, antes incomuns na região, têm penetrado em partes do México e da América Central.

De acordo com o analista, o reconhecimento do tzotzil e do tzeltal é uma de uma série de medidas tomadas por Roma para conquistar mais apoio nas comunidades indígenas.

Em essência, diz ele, é uma operação para “conquistar corações e mentes”.

Um destes corações e mentes pertence a Juan Gomez.

Um seminarista no Templo la Caridad, ele tem somente noções do espanhol e diz que a decisão do Vaticano foi vital para o apelo da Igreja em sua comunidade.

“Se só ouvissemos a missa em espanhol, era melhor ir dormir!”, brinca.

As comunidades indígenas de Chiapas estão entre as mais pobres do México e há muito tempo o Estado é acusado de ignorar as necessidades dos povos nativos.

O reconhecimento do tzotzil pela Igreja é motivo de orgulho para Juan.

“Roma é muito longe daqui. Nunca a conheceremos. Somos os últimos e os pobres, mas eles reconheceram nossa língua e agradecemos por isso”, diz.

Ao se aproximar o Natal, a missa da meia-noite no Templo la Caridad será celebrada da única maneira em que a congregação entende, em tzotzil. A diferença este ano é que ela acontecerá com a bênção de Roma.

A aprovação do Vaticano da celebração em línguas indígenas não mudou necessariamente a maneira como os nativos praticam a religião.

Mas pode ter dado a elas a sensação de que – cinco séculos depois de o catolicismo ter sido imposto aos povos locais – a Igreja católica agora tenta preservar seus idiomas tradicionais.

Fonte: BBC Brasil

CIA espiona Igreja Católica e movimentos sociais no Brasil até hoje

São Paulo – A CIA investiga atividades do catolicismo e de movimentos sociais no Brasil desde 1960. O jornalista Dermi Azevedo afirma, em entrevista à Rádio Brasil Atual, que a agência de espionagem norte-americana agia fortemente no período em que as Ligas Camponesas – principal organização de trabalhadores do campo até o golpe de 1964 – atuavam. “A CIA fornecia recursos e apoio logístico, para se contrapor às ligas e para obter informações sobre o catolicismo no Nordeste e no país”, conta.

Segundo Azevedo, a agência cooptou fontes do arcebispo dom Eugênio Sales, então administrador apostólico da arquidiocese de Natal. “Não dá para afirmar que dom Eugênio tenha sido um instrumento consciente, mas havia assessores dele na cúria de Natal que eram agentes da organização, brasileiros e norte-americanos”, relata, lembrando que eram monitoradas as atividades de dioceses em vários estados.

Apesar de o auge da colaboração da CIA com a Igreja Católica no Brasil ter se dado entre 1960 e 1985, para o jornalista, as atividades da organização no país duram até os dias de hoje. Ele também atribui à agência o fortalecimento de igrejas Neopentecostais.

Igreja Católica critica nova lei por “facilitar o aborto”

Rio de Janeiro – O Episcopado brasileiro criticou na sexta-feira a aprovação de uma nova lei que obriga à distribuição de pílulas do dia seguinte a vítimas de violação por considerar que “facilita o aborto”.

A lei, aprovada de forma unânime no Congresso brasileiro, foi ratificada na quinta-feira pela Presidente, Dilma Rousseff, que não vetou nenhum artigo como pediam as igrejas católica e evangélica.

O Episcopado constatou que a lei foi aprovada de forma rápida e sem um “necessário debate parlamentar e público”, o que gerou “imprecisões” no texto que abrem caminho ao aborto.

A Igreja Católica pedia o veto do artigo que obriga os centros de saúde públicos a distribuírem a pílula do dia seguinte a mulheres violadas e de outro que se refere ao dever de informar as vítimas do seu direito de abortar, protegido por lei.

A Igreja queria ainda a anulação do artigo do diploma em que a violência sexual é definida como “qualquer forma de actividade sexual não consentida”.

“Dependendo da forma como for interpretada, entre outras coisas, (a lei) pode interferir com o direito constitucional de objecção de consciência, incluindo o respeito incondicional pela vida humana individual já existente e em desenvolvimento no útero materno, facilitando a prática do aborto”, refere um comunicado do Episcopado.

A secretária de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, defendeu que a nova lei significa “respeito pelas mulheres que sofrem de violência sexual”.

No Brasil, o aborto é legal apenas em casos de violação, quando a gravidez coloca em risco a vida da mãe e quando o fecto não tem cérebro.

Igreja Católica no debate sobre migração nos EUA

Um relato oficial do Escritório de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos, publicado dia 29, aponta que, se for aprovada a reforma da imigração, um entre quatro imigrantes sem documentos que vivem no país não serão capazes de regularizar sua situação. Isso porque faltará algum dos requisitos ou porque não serão capazes de terminarem as práticas. Dessa forma, dos mais de 11 milhões de imigrantes ilegais que se calcula viverem nos EUA, serão cerca de 8 milhões na tentativa de conseguir a cidadania.

Há algumas semanas, o Senado dos Estados Unidos aprovou uma lei de reforma que prevê um percurso de legalização para os imigrantes sem documentos. A aprovação do projeto da parte da Câmara dos Representantes foi complicada devido à oposição de muitos legisladores republicanos. Entre outras coisas, eles não queriam que, por meio desta reforma, a cidadania americana fosse concedida aos imigrantes sem documentos para que possam legalizar suas situações.

A Agência Fides recebeu a opinião expressa há poucos dias pelo Arcebispo de Los Angeles, Dom José H. Gómez, Presidente da Comissão pelos Migrantes da Conferência Episcopal, acerca da aprovação da lei: “Justamente por sermos da Igreja Católica é que nos interessa o debate sobre a imigração. É um debate sobre o futuro da Igreja e nosso povo católico. Os mexicanos e latino-americanos no centro dessa polêmica, milhões de pessoas cujos destinos são decididos por nossos políticos, são – em grande parte – fiéis católicos”.

O Arcebispo ainda salienta que a Igreja não leva em conta a proveniência de seus fiéis, mas calcula esse número através dos batismos das crianças. “Los Angeles, por exemplo, há uma média de cerca de 84.000 recém-nascidos e crianças ao ano. A maior parte deles são hispânicos e de outras minorias étnicas”.

Igreja Católica ajudará a buscar crianças roubadas na ditadura

A Igreja Católica se compromete a ajudar na busca de filhos de desaparecidos roubados durante a ditadura argentina (1976/83), após o pedido neste sentido realizado ao papa Francisco pelas Avós da Praça de Maio, informou a própria entidade nesta segunda-feira.

 

“O presidente da Conferência Episcopal Argentina se comprometeu a colaborar com a busca dos netos e netas roubados”, assinala um comunicado da organização humanitária emitido após uma reunião com monsenhor José María Arancedo, em Buenos Aires.

 

Este é o primeiro resultado concreto obtido pelas Avós da Praça de Maio decorrente da audiência que mantiveram com o Papa no dia 24 de abril passado, na Praça de São Pedro, no qual Francisco ouviu as queixas e respondeu: “contem comigo”.

 

As Avós, que já conseguiram recuperar a identidade de 108 das 500 crianças roubadas ao nascer em prisões clandestinas, pedem à Igreja que abra seus arquivos, em particular os do Movimento Familiar Cristão, que parece vinculado a adoções irregulares de crianças durante o regime militar. “Arancedo se mostrou permeável e disposto a colaborar com os pedidos das Avós e garantiu que a Igreja ‘já está trabalhando no tema”, assinala o comunicado.

 

A Avós entregaram uma lista de possíveis medidas para que “a promessa se converta em ação”. Neste sentido, pediram que se solicite “ao Movimento Familiar Cristão toda a informação em seu poder sobre crianças entregues para adoção durante a última ditadura”.

 

O grupo recorda que “duas netas foram entregues através desta instituição leiga, que mantinha um estreito vínculo com a Igreja”. As Avós também pedem cópias dos registros de batismo entre 1976 e 1983 em algumas “capelas onde supostamente foram batizados netos procurados”.

Igreja Católica vive o espírito da revitalização com Papa Francisco

Desde o momento em que pisou no solo brasileiro, Papa Francisco deixou evidente para o mundo o perfil do papado, não permitindo que protocolos interfiram no que ele mais preza como líder mundial da Igreja Católica: estar perto dos fiéis. Em sua primeira viagem internacional, Jorge Bergoglio surpreendeu jovens e adultos de todas as religiões com atitudes simples,  discursos diretos e firmes, gestos sinceros e, principalmente, a quebra de regras oficiais para estar tão próximo ao seu “rebanho” a ponto de tocá-lo, o que para muitos católicos representou um “verdadeiro milagre”.

A coerência naquilo que prega e pratica no cotidiano é uma marca de Bergoglio desde o tempo em que era cardeal em Buenos Aires. A sua passagem pelo Brasil despertou nos religiosos e teólogos o sentimento que antes se distanciava do mundo, o da certeza que a Igreja Católica conseguirá reconquistar os fiéis de se “desgarraram” ao longo dos últimos anos. Papa Francisco chegou à Santa Sé com uma missão que parecia complicada, mas a sua visita ao Brasil mudou os pensamentos dos mais incrédulos e a Igreja Católica sai da Jornada Mundial da Juventude com um saldo positivo e animador, apesar de tantos “tropeços” provocados pelo não cumprimento de um protocolo estabelecido pelo Vaticano.

A teóloga Maria Clara Bingemer é autora do livro O Mistério e o mundo – Paixão por Deus em tempos de descrença, que avalia a crise das religiões provocadas por mudanças culturais em todo mundo. Ela avalia pontos importantes da visita do Papa Francisco ao Brasil na entrevista que concedeu ao Jornal do Brasil:

Jornal do Brasil – Vaticano passa atualmente por profundas transformações. A senhora acha que o Papa Francisco chegou à Santa Sé para mudar, de imediato, a imagem da Igreja Católica?  

Maria Clara Bingemer – Acho que isto é um fato que ninguém pode negar. O Papa Francisco mudou a imagem da igreja em dias, já pouco depois de sua eleição. Instaurou um estilo mais casual, mais próximo, mais pessoal, que fala muito mais ao coração das pessoas. Com os jovens então é surpreendente o sucesso de sua comunicação. A gente sente que os jovens entendem o que ele fala, sintonizam com seu estilo de ser e de atuar. Acredito que isso pode ter uma influência benéfica para o futuro imediato da Igreja Católica, que perdeu tantos fiéis. Sobretudo, o que acho melhor de tudo é  a insistência dele em uma igreja mais pró-ativa, que não fique trancada na sacristia, que saia para a rua e vá ao encontro das pessoas. Sua declaração em um dos discursos no Rio: “quiero lío en las diocesis…”. Ou seja, “quero agito nas dioceses…”. É original e fantástica para animar o espírito missionário.

Jornal do Brasil – Pelo pouco tempo de pontificado, dá para arriscar como será a postura do Papa Francisco na missão de mudar o Vaticano?

Maria Clara Bingemer  – Acho que dá para avaliar que ele fará uma reforma séria e não superficial, só para constar. Creio, porém, que não devemos nos iludir. Há pontos muito difíceis de serem modificados e mexer. Há muita gente a quem não interessa muito que as coisas sejam mudadas ou reformadas. Mas  ele tem demonstrado que as coisas que acha que devem ser feitas, ele as fará. Por isso, acredito que uma boa parte das coisas será feita.

Jornal do Brasil – Os teólogos criaram uma expectativa enorme com a vista do Papa, inclusive prevendo muitas surpresas. E o Papa realmente chegou quebrando protocolo, esbanjando simplicidade, criando polêmicas. Daquelas expectativas dos teólogos, o que se confirmou e o que mudou com a passagem do Papa Francisco pelo Rio?

Maria Clara Bingemer- Para os teólogos realmente a impressão é das melhores.  Até este momento ele só tem dado mostras que quer voltar à boa teologia do Vaticano, que estava muito esquecida nos pontificados anteriores.  Ele tem uma visão de igreja muito positiva, realmente igreja como povo de Deus e não piramidal, sociedade perfeita. Além disso, tem reabilitado muito a teologia da libertação, com a ênfase que está dando à justiça social e à opção pelos pobres.

Jornal do Brasil –  Vendo de tão perto, aqui do Brasil, qual a imagem do Papa Francisco que deve ficar para os católicos brasileiros, turistas no Rio e para o mundo, considerando que esta é a primeira viagem internacional do pontífice?

Maria Clara Bingemer- Fica um perfil de carinho, proximidade, simpatia.  Gestos diretos, de proximidade, simplicidade. E um discurso claro, inteligível, ressaltando todo este aspecto missionário da igreja, que tem que sair e ir até as pessoas. Os católicos brasileiros estão agora com orgulho de ser católicos e sem medo de demonstrá-lo e apregoá-lo aos quatro ventos.

Jornal do Brasil – E considerando que esse fato histórico aconteceu na Jornada Mundial da Juventude, qual a mensagem que a Papa deixou para os jovens de todas as nacionalidades?

Maria Clara Bingemer – Para os jovens fica uma mensagem de esperança, de encorajamento para assumir com coragem sua missão de testemunhas do evangelho. E um alerta contra os ídolos que lhes esvaziam o sentido da vida e os mercadores da morte, que lhes oferecem as substâncias químicas que os matam.

Jornal do Brasil – A quebra de protocolo surpreendeu. O que esse fato pode representar na comunicação do Papa com a comunidade católica no mundo e as expectativas que ficam para as próximas viagens a outros países. Ele deve manter essa postura em outros lugares?

Maria Clara Bingemer  – Isso eu acho que é o melhor dele. Esse dom de surpreender todo mundo com simplicidade, gentileza, amabilidade, simpatia e alegria. E algo que eu acho que ele não deixará de fazer, que aliás eu espero que ele não deixe de fazer. Porque dá uma nova imagem ao papado e a igreja católica. Vai ser muito importante nestas viagens que ele fará pelo mundo.

Jornal do Brasil – No seu último livro, “O mistério e o mundo”, a senhora avalia de alguma forma a missão do Papa e a nova Igreja Católica?

Maria Clara Bingemer  – Neste livro eu não analiso a missão do Papa.  Faço sim, uma analise da situação da religião e do Cristianismo nesta sociedade secularizada e plural. E justamente constato que o Cristianismo e a religião, em geral, foram perdendo espaço. Mas ao mesmo tempo, a sede de Deus não desapareceu do coração humano e os místicos contemporâneos são uma prova disso, com suas experiências de união com o mistério divino que gera atitudes éticas, transformadoras, impressionantes e profundas, ainda que não dentro dos moldes normalmente oficializados pela instituição.

Jornal do Brasil – Pelos discursos do Papa no Rio, nos eventos da JMJ, o que podemos esperar de seu governo no Vaticano?

Maria Clara Bingemer  – Penso que ele vai se esforçar para, além das reformas internas, reforçar esse novo rosto externo do Vaticano e da igreja. Vai relativizar tudo que é burocrático, institucional rígido, fora de moda e afastado da vida real das pessoas, para mostrar que o evangelho é libertador. Vai insistir na simplicidade e no despojamento como sinais reais que devem revestir àqueles que são testemunhas de Jesus Cristo no mundo de hoje.

Jornal do Brasil – E as manifestações populares e até atos que vandalismo que ocorreram pelas ruas do Rio de Janeiro enquanto o Papa Francisco visitava a cidade, de alguma forma atrapalharam a participação dele na JMJ?

Maria Clara Bingemer  – Penso que as especulações de alguns de que as manifestações tinham o objetivo de desestabilizar a visita do papa não procedem. Acho que o papa aprovaria muito as manifestações e suas revindicações. Não certamente os atos de vandalismo e violência. Depois da missa em Copacabana, foi bonito ver manifestantes e peregrinos confraternizando e estando juntos de certa maneira. No fundo, lutam por um mundo melhor e este sempre foi uma das vertentes mais fundamentais do evangelho.